25.12.11

mais acompanhados são os natais que se passam sem companhia


o número dos convivas à mesa da consoada aumenta anualmente. 

este ano compareceu, pela primeira vez, o pva. trouxe de presente uma fotografia da zaleta, com pouco mais de um ano, sentada no chão do jardim, muito compenetrada a abrir um presente de natal. também era um dia de natal brilhante de sol, aquele. mas não me lembro se o mar se ouvia como hoje.

são convidados que não vêm à espera de presentes nem ao cheiro de bolo rei - embora bebam sempre do meu vinho. ao invés - são eles, os mortos, que aparecem aos vivos, sempre carregados de presentes.

a minha mãe voltou a oferecer me a moldura de cabedal verde escuro em cujo interior desaparece uma fotografia. cara de mulher que ambas sabemos ser de uma de nós mas nenhuma sabe dizer qual.  é a moldura do remorso, desembrulhada no quarto da quinta (muito mais nítido do que este agora recuperado e que se volta ao mar) durante uma noite de natal essa sim, em irremediável solidão.

o meu pai confunde-se com um dos três reis magos (je suis noir mais je suis roi), trazendo para distribuir valiosos produtos da sua de mim tão longínqua terra natal. entre eles dou um valor muito especial à nobreza humilde da vida solitária e à independência calada com que se envelhece e morre.

13.12.11

second day

1. nova visita às casas desta vez com zé manel electricista que chegou atrasado mais de uma hora
2. partida, armada da caderneta predial, para fazer o contrato da água. nada feito porque a caderneta era de 2006 e era preciso uma actual. de nada valeu invocar que já tinha um contrato no mesmo local, era o mesmo numero de matriz, a mesma pessoa. não servia, pois eu podia ter vendido a casa entretanto. apeteceu-me perguntar de que data teria de ser a caderneta - se só aceitavam do dia (mesmo assim podia ter vendido a casa de manhã) mas não perguntei. mais do que da merkel, dependemos dos funcionários públicos.
3. finanças a achar que pronto paciência, era tudo perto e eu até estava de carro e o sol brilhava e eu tinha vindo cá para estas peregrinações. porta de grade fechada, como se fosse feriado, apesar de ser terça feira. vi possibilidade de abrir o fecho, metendo a mão e preparava-me para entrar quando sai um funcionário gritando que estava fechado. fechado, mas é 1 da tarde, então não fecham só às 4? fechamos às quatro da parte da tarde e ao meio dia e meia para o almoço - terá de voltar às duas. os senhores fecham à hora do almoço? mas então as repartições públicas não estão abertas das 9 às 4? isso é só em lisboa e no porto. ah desculpe mas a câmara cá de lagos tem o mesmo horário. mas isso é a câmara, nós não. saí muito cabisbaixa mas logo recuperei a pensar que ia aproveitar para ir ao Qgarden onde o jardineiro de ontem me tinha dito haver velas, não das bonitas como as do Oz shade mas possíveis.
4. estava aberto e a senhora era simpática e prestável e havia. em cores não ideais, não sei um que eles chamam terracota e a mim me parece um castanho encarniçado ou um encarnado acastanhado, talvez não ficasse mal. quanto custa, que dimensões, montam, qual o preço da montagem. tudo carote mas possível como as cores.
5. nova tentativa nas finanças de onde saí com uma caderneta actualizada - pela qual não paguei nada - a correr para a câmara, novamente, não fosse ela perder a validade.
6. contrato da água feito e o antigo do meu pai, transferido para meu novo. paguei com os outros 80 euros que a ljuba me tinha voltado a emprestar. mas, como não tinha cartão MB bão consegui que a factura fosse feita por débito na conta. apesar de a a outra já ser, eu ser a mesma pessa, a conta ser a mesma. as mesmas cenas.
7. eram 3 e tal, tinha fome e achei que me oferecia uma pizza rápida se me prometesse que, depois de alimentada, iria à PT tratar da internet e armada com toda a paciência do mundo.
8. pizza nada má comida no mama mia a falar, pelo telefone com o mestra apolinário (zé pereira deve ter ficado ofendido nunca mais disse nada, volto aos meus...)
9. na PT esperei mais de meia hora em pé mas tive a sorte de ser recebida por uma menina simpática. percebi, finalmente, que na lista deles, esta zona, tanto para meo como para sapo, é de 50%. quer isto dizer que tem tantas probabilidades de haver rede como de não haver. está explicado o fiasco do sapo, embora fique por explicar o comportamento deles. ficou aprazada uma vinda cá, de um técnico para avaliar das possibilidades da meo. técnico que, pelo que percebo, só vem se quiser, na medida em que, por eu não ter feito o pedido oficial (ainda não paguei o que devo), não tem obrigação de o fazer. como dizia a menina: pode ser que tenha sorte de apanhar um que seja bom técnico e que lá queira ir, mas é preciso ter sorte.
10. chegada a casa tinha na inbox o orçamento dos colchões e afins que andam à roda da bela e do planeta. tudo na ordem dos 1800 a 2000 os 10 tapis mais os 10 colchões.
as vezes pergunto-me, outras não.

12.12.11

daily report

1. tentativa fracassada de recuperação do cartão MB: ida primeiro ao montepio cuja máquina o comeu e depois à CGD - onde não me devolveram o cartão, onde tive de escolher entre esperar uma semana, pela substituição do comido (9 euros) o qual, ainda por cima só pode ir para lisboa, ou pedir um novo urgente (perto de 30); escolhi o que vai para lisboa pois, não tendo dinheiro na conta tanto me faz ter cartão MB ou não ter.
2. tentativa fracassada de dar os restos de roupas dos guichas que rebolam no meu carro há quase três anos. apesar do letreiro dizendo "aberto" que estava pendurado na porta, estava fechado. voltei a carregar com a saca para o carro.
3. telefona o pintor, um dos, que já estava na casa para onde vim a correr. feito o orçamento, mantendo o amarelo - perto de 800 euros. de branco, como eu queria, seria 3 vezes mais. descorçoada.
4. requintadíssimo pequeno almoço porque com tudo o que há de mais simples e verdadeiro - pão genial, manteiga sem sal, queijo fresco e bom café.
5. parti contente para a sofa planet cujo orçamento para 10 camas com colchões, dos mais rijos, though ( e baratos) é de 1800.
6. ainda contente fui a Almádena, finalmente, conhecer a decoradora bela. mesmo programa, mas com uns colchões um pouco melhores, 2000.
7. era hora de vir o jardineiro do meu afilhado - um psicólogo que deixou lisboa e a clínica para vir tratar de jardins, e de uma horta, com o pessoal da sua empresa, para lagos. animada conversa e boas perspectivas de negócio. rondará os 40 a 50 por mês (e o sr. zé, um nortenho vivaço a pedir 150)
8. acabada a sanduiche de salmão e rúcula com um copo de leite, logo aparece o tipo da EDP que, além de ligar a luz, me deixou o contacto de um electricista para pedir novo orçamento.
9. telefona a menina da d. alice das cortinas que vinha medir as janelas e ver os sofás para fazer as capas. felizmente não há o tecido horrível que a ljuba queria. orçamento só das capas das almofadas 350.
10. ao fim da tarde chega o electricista recomendado pelo tipo da EDP que acaba de sair prometendo mandar o orçamento amanhã.
11. enquanto guiava o electricista pelo res do chão telefona o senhor do coisas e afins a perguntar se as camas eram para um hotel - parece que os preços são mais baratos. estúpida disse que não. mas ele promete desconto. será o terceiro. desta vez não pecarei por falta de orçamentos. já vou numa média de 2 para cada tarefa e ainda faltam muitos mesmos.
toda esta actividade sem um cêntimo no bolso já que ontem, esquecida de que não tinha cartão MB, fui aviar-me ao Lidl onde até tive de deixar as asas de frango e a garrafa de azeite para a conta não ultrapassar os únicos 40 euros que me restavam.
esta noite bebo um copo de vinho de porto (que sobrou do casamento) à minha relação com o Pedro, isto é, à nossa filha Rosa - o terceiro que sempre caminhará ao nosso lado.
 
tipo da EDP ligar os contadores. passou a haver luz e o nome de um outro electricista a quem logo telfonei pedindo orçamento.

ro(n)da

ando muito à roda.
sinto-me por vezes como um cão (se deve sentir) a farejar o seu território.
não tenho é a intenção de fazer xixi em canto algum.

21.11.11

mãe

vem do crisóstomo, naturalmente. mas sei bem quem, nestes tempos, se deve estar a sentir apenas metade de si próprio.

18.11.11

18-11

reconheço o barulho da chuva e o brilho intermitente do alcatrão. e pouco mais. este ano.

17.11.11

o inverno do nosso contentamento

a senhora, viúva e bem entrada nos 70 anos, sem filhos nem netos para amar ou tratar, não se conseguia decidir sobre o tipo de "coisa" com que sonhava preencher a sua vida. desde há alguns que se debatia entre o desejo de possuir um cão, a perspectiva de arranjar um marido, a fantasia de adoptar uma crianca abandonada ou mesmo, porque não, a aceitaçao de uma pessoa velha sem família; até a hipótese de se afeiçoar a um hamster lhe parecia plausível - o que era urgente, sentia cada vez com mais premência, era colocar uma vida no centro da sua vida, um ser vivo e sentiente cuja saúde e bem estar fossem da sua inteira e única responsabilidade. uma manhã destas de chuva, reparou, ao acordar, que diferentemente do que se vinha passando diariamente, há vários anos, a sua mente estava completamente vazia - a inexplicável hesitação entre os itens do seu catálogo secreto, não estava lá dentro. nem cá fora. ao encetar o seu dia, sentiu-se vagamente sozinha e, já a caminho da tarde, percebeu que a solidão tinha vindo a aumentar preenchendo agora uma parte substancial da sua mente. ainda havia uma claridade nos vidros das janelas quando a mulher percebeu que iria entrar na noite com a mente absolutamente atulhada de solidão. lembrando-se da insegurança permanente que lhe vinha da inexplicável hesitação entre o hamster, o marido, o cão, @ velh@, e a criança, a solidão pareceu-lhe um terreno seguro, uma realidade consistente, um ponto firme de apoio. já na cama, deitou algumas lágrimas, que não lhe souberam mal, antes de adormecer, descansada, na companhia da sua solidão. nessa noite sonhou que, sem saber como nem porquê, tinha colocado a sua vida no centro da sua vida, tomando, a seu único e exclusivo cargo, a saúde e o bem estar do corpo vivo e sentiente que era o seu.

16.10.11

meditação sobre a morte

à pequena perspectiva da mortalidade individual junta-se agora a grande perspectiva da mortalidade social. da mortalidade nacional, mais imponente, à la barreto, não me ocupo.

aniversários

fez um mês. estivemos em fez. nenhum aniversário se repete. la llorona. já não me consigo lembrar.

27.9.11

os acordes,

ora soltos ora frásticos, de uma flauta celebrando uma vida - esta morte? a tarde gelou disse o Tiago.

quand vient la fin de l'été

angosto vai se prolongando por selembro.

de vela

- olá prima. estive aqui sentado sozinho de manhã antes de toda a gente chegar. - sabe tão bem não é?

7.9.11

privilégio

nunca me tendo acontecido estar nisto sem ter de tomar decisões ou entrar em quaisquer negociações, sobra me o tempo todo, livre de toda a distração, para a contemplação da morte. e para o que parece ser um arremedo de oração - pedido de paz e de clemência.

5.9.11

do pão e do mundo

tenho pisado terreno minado com uma quase completa inconsciência. como será agora, acordada que fui para o carácter religioso e/ou telúrico do que manipulo? tinha havido um sinal no antigamente da vida mas eu, claro, não lhe prestei a atenção devida - ainda que o não tenha esquecido.

31.8.11

regret after regret - a few silent stats

o que você fez muito mal foi ter ido para Macau.
se calhar.

diálogo

- pois é minha senhora--- deve ser muito bom ser rico...
- pois deve... e tu o que é que fazias se fosses rico?
- se eu fosse rico?! eu?---- se eu fosse rico---  oh minha senhora ~~~~~--------- cocó!

pedido

- o que você podia era abrir um pouco esse vestido...
- qual vestido?
- esse... saia... levantar um pouco
- assim?
- sim. mais um pouco por favor, desde que não seja inconfortável para si.

o que é que eu posso fazer?

- creio que agora só podes fazer o que mais coragem exige: entregar-te.
eu sei que é muito difícil - aceitar que nada podes fazer senão deixares fazer: façam de mim o que quiserem.
- mas isso é o que eu faço desde bebé...
 

trata-se

de transformar uma "massa" solta, de vários e desvairados elementos,  numa verdadeira massa - flexível, extensível e coesa.

19.8.11

i just wish you may have

the serenity to accept the things you cannot change, the courage to change the things you can, and the wisdom to know the difference.

antigo testamento

eram três as volições mas havia uma que lhe faltava. era afinal a única que não fazia falta alguma - embora, ela própria, relevasse de uma falta. como viria a constatar quando, umas horas depois, a terceira volição lhe voltou involuntariamente, à memória. e depois de pois em pois.

one after another, a few silent steps

no caminho de pedras se rasgam os pés com que caminha emprestados.

16.8.11

a medida da terra

do cultivo da terra, tudo me encanta: os milagres inesperados - o raminho de beldroegas a nascer este verão de sementes perdidas de um verão passado, o delgado broto de passiflora que cresce leve e solitário a 10 metros de distância da trepadeira mãe, a descoberta de que o caule do papiro serve de fio para agarrar as folhas da hera, a cor, de vinho maduro, no figo da figueira nortenha; como os aguardados resultados, para não falar já do próprio processo de espera - a força e a elasticidade das guias do chuchu, como o sr. pires tinha previsto, a diferença no verde das duas espécies de basílico lida na literatura das sementes, a abundância da produção das amêndoas depois do corte das ramadas que ensombravam a amendoeira, o rebentar da erva cidreira e o lento declínio do cacto de flores encarnadas que não aguenta tanta água.
pode ainda a terra vir a servir-me de medida para os dias daquilo a que alguém chamou o meu outono.

14.8.11

se

tivesse aprendido a cozinhar, enquanto adolescente, teria certamente "ido para" artes ou para ciências. assim, sem qualquer ligação ao concreto do fazer, "fui para" letras, que, como é conhecimento geral, são tretas.

9.8.11

a barca

Only one ship is seeking us, a black-
Sailed unfamiliar, towing at her back
A huge and birdless silence. In her wake
No waters breed or break. 

Philip Larkin, 'Next, Please', 1955

6.8.11

enquanto criaturas do tempo, cedo aprenderam a dar tempo ao tempo.

5.8.11

poema para a catarina

Hei-de levar-te filha a conhecer a neve
tu que sabes do sol e das marés
mas nunca repousaste os teus pequenos pés
na alvura que só longe e em ti houve
Tinha estado na morte e não pudera
aguentar tamanha solidão
mas depois tive a companhia do nevão
e tu hás-de vir filha com a primavera
E o deslumbrante resplendor da alegria
tua felicidade eterna à vida
já não permitirão tua partida
quando raiar fatal o novo dia
As barcas carregadas com as rosas
virão perto daquela pura voz
abandonada pelos meus longínquos avós
em lagoas profundas perigosas
Não me afecta o mínimo cuidado
sinto-me vertical sinto-me forte
embora leve em mim até à morte
a cabeça de um príncipe coitado
Naquelas madrugadas primitivas
eu segredava um secreto pranto
vizinho da alegria enquanto
pelos dois tu ias de mãos vivas
O costume da minha solidão
é ver pela janela as oliveiras
que de todas as árvores foram as primeiras
que tocaram meu jovem coração
Purificado pelo tempo estou
um tempo de feroz esquecimento
vem minha filha vem neste momento
em que eu liberto ao teu encontro vou
Recordo-me do teu cabelo de chuva
quando tu caminhavas ágil e ladina
pelos desfiladeiros da neblina
nessa distante região da uva
Minha paixão viril serena pelos ritos
deseja que na minha companhia
tu sejas imolada à alegria
na surda região alheia aos gritos
Não olhes o meu rosto devastado pela idade
a vida para mim é como se chovesse
mas se viesses seria como se me acontecesse
cantar contigo a perene mocidade
O tempo em que viesses sim seria
um tempo vertebrado um tempo inteiro
e não meras palavras arrancadas ao tinteiro
e alinhadas em fugaz caligrafia
Viesses tu que a tua vinda afastaria
todos os meus cuidados transeuntes
e para sempre alegre viveria
os meus dias infantes já distantes
A solução da solidão compartilhada
onde vejo o meu mais profundo mundo
seria a solução ampla e sem fundo
oposta sem resposta ao meu país do nada
Com a voracidade do olvido
seria só tu vires e lutares
e por mim de olhos enormes e crepusculares
serias ente querido recebido
Volta com os primeiros anjos de dezembro
num vasto laranjal eu quero amar-te
e então a tua vida há-de ser a minha arte
e o teu vulto a única coisa que relembro
O passado é mentira digo eu
e sob a árvore plena de alegria
o mínimo cuidado esmoreceu
sensível ao esplendor do meio-dia
Ao grande peso de tanto passado
com a insónia da dúvida na testa
basta a tua presença que protesta
e todo eu me sinto renovado


Madrid, 15/V/1977

Ruy Belo - in Despeço-me da terra da alegria

3.8.11

east-west

era por ter as suas duas faces viradas para direcções opostas que janus podia olhar, ao mesmo tempo, para o passado e para o futuro.
o corpo, já se sabe, não é uma planta num vaso que a gente rega e ela arrebita.
o corpo não tem raízes na terra.

31.7.11

angosto.

frost on fire (and ice)

Some say the world will end in fire, Some say in ice. From what I've tasted of desire I hold with those who favour fire. But if it had to perish twice, I think I know enough of hate To say that for destruction ice Is also great And would suffice.

19.7.11

despedida de solteira

não era hermafrodita que isso implicava ser ao mesmo tempo. era antes alternadamente - ora homem ora mulher. se fosse hoje seria queer - quem sabe? ontem não se sabia - apenas se sonhava que não havia de ser. de resto sonha-se sempre com o que se sabe - como haveria alguém de sonhar com o que não sabe? o que não se sabe não existe.

Still sat Umā

Still sat Umā though scorched by various flame Of solar fire and fires of kindled birth, Until at summer's end the waters came. Steam rose from her body as it rose from earth. With momentary pause the first drops rest Upon her lash then strike her nether lip, Fracture upon the highland of her breast, Across the ladder of her waist then trip And slowly at her navel come to rest.

18.7.11

tanta comoção, no FB, por me ter posto "in a relationship" comigo própria. but then, what would you expect my dear?

little steps

tanto foi o trabalho, próprio e alheio, no ensino/aprendiazagem de que não se deixa comida no prato como há de ser o trabalho, agora só próprio, na desaprendizagem do que se aprendeu.

17.7.11

look well to this day

look well to this day for it is life the very best of life. in its brief course lie all the realities and truths of existence, the joy of growth, the splendour of action, the glory of power. for yesterday is but a memory and tomorrow is only a vision but today, well lived, makes every yesterday a memory of happiness and every tomorrow a vision of hope. look well, therefore, to this day.

11.7.11

a massa da vida

veio tudo ao mesmo. ou, é tudo feito da mesma massa. antes, trata-se de meter as mãos na massa.  

25.6.11

como as mais das vezes se encontra o que não se procura

consta que o padre luís fróis, ao chegar à china, no século XVI, terá exclamado, maravilhado com o que via à sua volta: eu vinha em busca do céu e afinal encontrei o paraíso!

24.6.11

the special one

esta minha amiga.
tem a mesma idade que eu mas só agora começou a comer com as mãos. o motivo por que teria encetado esta nova maneira de estar à mesa - comendo à mão e não com talheres nem com pauzinhos - prender-se-ia com o facto das suas frequentes indisposições estomacais a forçarem a comer quase sempre arroz.
eu, tendo-a visto ontem, à mesa do jantar, em sua casa, acredito que é mais uma questão estética do que dietética - desde o mês que passei na índia, há muitos anos, que não via modo tão delicado de comer,  maneira tão requintada de estar à mesa.

3.5.11

à la Zhuangzi

como durmo sempre com a telefonia acesa, tendo a confundir a realidade com o sonho. ou com o pesadelo, como hoje aconteceu: comecei o dia aliviada por apenas ter sonhado que as pensões de aposentação, superiores a 600 € mensais, iam ser reduzidas; acabo-o transtornada por já ter realizado que as pensões de aposentação, superiores a 600 euros mensais, vão ser reduzidas.

parlamento mental

na minha cabeça não existe apenas uma outra pessoa, como acontecia na cabeça do tipo que disse, uma vez, esta bela frase: there is someone in my head but it is not me. na minha cabeça existem muitas dezenas de pessoas, sujeitos que, por terem valores e personalidades muito diferentes entre si, e também por viverem confinados num espaço tão pequeno e fechado como é uma cabeça humana, estão sempre a discutir uns com os outros. situação que só não é alarmante porque  as pessoas que estão na minha cabeça souberam, em devido tempo, organizar-se em partidos políticos com eles formando um parlamento no qual ficaram representadas todas as tendências ideológicas, da extrema esquerda à extrema direita,* e a cujos debatos eu assisto, ora divertida ora comovida, raramente surpreendida pois os deputados eleitos pensam menos pela sua própria cabeça do que pela cabeça da sua formação partidária.

existe mesmo um deputado eleito por um partido de estrema direita, pró fascista, cujas propostas a favor da liquidação sumária dos inimigos, ou pelo encerramento dos órgãos de informação que o vilipendiam,  até a mim, que nada tenho a ver com ele, me fazem corar de vergonha. 

30.3.11

verei

o que me dizem as cartas.

sei, no entanto que o que as cartas dizem não diz nada se eu não disser o que lá está dito. o que só acontecerá se conseguir situar-me inteiramente no presente, impedindo a memória, sempre tão viva, de se intrometer.

este é um pequeno trabalho para o tempo de grande crise: dizer(-me agora) o que (então lhe-)disse. dizer o que disse. tarefa simultaneamente impossível e inevitável. assim é a língua que, ao dizermo-nos, nos diz.

parece

um teste ao meu agnosticismo.

ontem

cozinho. a cozinha.
velo. a vela.
gosto. o gosto.
40's, 50's, 60's e 70's.
e uma disse que se lá por se ser velho não se deixa de ser novo.
o que as outras três, talvez todas, sentiam ou pressentiam ser verdade. a verdade, o que é dizer os afectos, sendo, mesmo tempo, a raiz e a flor das suas conversas. jogo. o jogo.
só por acaso eram quatro. o número dado era o  três que, como se sabe é produzido pelo dois. o terceiro sexo como paisagem lembras-te?

28.3.11

a crise

era uma pessoa muito poupada. aproveitava todos os restos dos dias para cozinhar o seu dia a dia. aos dias, propriamente ditos, guardava-os ao abrigo da luz, para os usar em ocasiões especiais como o casamento de um neto ou o funeral de uma amiga.

o gargalo da garrafa

não é silêncio, é gaguez, não é preto e branco, é desbotado,  não é invisível, é sem dimensão, não é generosidade, é falta de vontade, não é contemplação, é cegueira, não é repouso, é paralisia, não é sabedoria, é sensaboria. é não é?

dia Llansol

- tu bem me tinhas avisado, eles são mesmo uma seita.
- uma heresia não é? como de resto ela nos ensina quando escreve ora voando ora heresiando...
- sim, pode-se dizer que sim, é uma escritura heresiante.

mobilando

é mulher, demora-se com as toalhas turcas de casa de banho: primeiro tenta tornar evidente a combinação d(e todas) as cores; depois imagina os modos, inimagináveis, da sua dobradura.
é velha, deixa-se ficar sentada, muito ao de leve, na borda da banheira: as mãos ainda cheias de cores macias, os olhos já re-pousados na de-morada contemplação do futuro, reflectido, ao pormenor, no vidro das prateleiras.

24.2.11

se-fosse-hoje

- o sr. arménio,* se fosse hoje, era músico, eu, se fosse hoje, era fotógrafa*** e o sr. apolinário,** se fosse hoje o que era?
- eu não tenho assim nenhuma... só... vá lá ... podia ser pescador...
e você o que era se-fosse-hoje?

* o sr. arménio, além de carpinteiro, é músico e toca na banda
** o sr. apolinário, além de pedreiro, é pescador e muito assíduo

23.2.11

electra


o pai
morreu
a filha
(não)
ficou
viúva,
e etc.


22.2.11

lukewarming

but because thou art lukewarm and neither cold nor hot, i will begin to vomit thee out of my mouth.

19.2.11

morfologias

levava os vagares vindos do viver devagar. 
pegada aos olhos, a consistência dos figos secos e, nas mãos, a memória de gestos antigos - a lembrança de como a matéria se encarrega de dirigir as mãos na execução dos gestos - com que  se modulam as estrelas. 
permanente o humano compromisso entre as formas naturais e as formas ideais.
como se não bastasse sonhar os sonhos que se sonha, não quer saber de vivê-los.      

desassossego

viver por interposta pessoa. pessoa em pessoa intraposta. transpessoal depois de transposta.

14.2.11

and the last from questions of travel

what childishness is it that while there's a breath of life
in our bodies, we are determined to rush
to see the sun the other way around?
The tiniest green hummingbird in the world?
To stare at some inexplicable old stonework,
inexplicable and impenetrable,
at any view,
instantly seen and always, always delightful?
...
But surely it would have been a pity
not to have seen the trees along this road,
really exaggerated in their beauty,
not to have seen them gesturing
like noble pantomimists, robed in pink.
. . .

13.2.11

more bishop i.e. more travel questions

Should we have stayed at home and thought of here?
Where should we be today?
Is it right to be watching strangers in a play
in this strangest of theaters?

Oh, must we dream our dreams
and have them, too?
And have we room
for one more folded sunset, still quite warm?

12.2.11

questions of travel


Is it lack of imagination that makes us come
to imagined places, not just stay at home?
Or could Pascal have been entirely right
about just sitting quietly in one's room?

Continent, city, country, society:
the choice is never wide and never free.
And here, or there... No. Should we have stayed at home,
wherever that may be?

9.2.11



olhando as transparências da ana vieira vê-se o mundo, vê-se a artista e vê-se a si própria.
 














gosto tanto das 'coisas' da ana vieira: das transparências às envolvências, passando pelos cortes e recortes, tudo nela me convoca à fusão entre pensamento e sentimento. leve o peso da sua gravidade. aqui em dois tons de azul.






















manuel amado
uma racionalidade perfeita.
a opacidade total da realidade.




confiando no(s) arquitecto(s)

8.2.11

muito interessante este blog com informação sobre vivian maier e no qual são publicados alguns exemplos do trabalho desta fotógrafa de rua até há pouco tempo inteiramente desconhecida

6.2.11

De Amore

1. Marriage is no excuse for not loving.
2. He who is not jealous can not love.
3. No one can be bound by two loves.
4. Love is always growing or diminishing.
5. It is not good for one lover to take anything against the will of the other.
6. A male cannot love until he has fully reached puberty.
7. Two years of mourning for a dead lover are prescribed for surviving lovers.
8. No one should be deprived of love without a valid reason.
9. No one can love who is not driven to do so by the power of love.
10. Love always departs from the dwelling place of avarice.
11. It is not proper to love one whom one would be ashamed to marry.
12. The true lover never desires the embraces of any save his lover.
13. Love rarely lasts when it is revealed.
14. An easy attainment makes love contemptible; a difficult one
makes it more dear.
15. Every lover turns pale in the presence of his beloved.
16. When a lover suddenly has sight of his beloved, his heart beats wildly.
17. A new love expells an old one.
18. Moral integrity alone makes one worthy of love.
19. If love diminishes, it quickly leaves and rarely revives.
20. A lover is always fearful.
21. True jealousy always increases the effects of love.
22. If a lover suspects another, jealousy and the efects of love increase.
23. He who is vexed by the thoughts of love eats little and seldom sleeps.
24. Every action of a lover ends in the thought of his beloved.
25. The true lover believes only that which he thinks will please his beloved.
26. Love can deny nothing to love.
27. A lover can never have enough of the embraces of his beloved.
28. The slightest suspicion incites the lover to suspect the worse of his beloved.
29. He who suffers from an excess of passion is not suited to love.
30. The true lover is continuously obsessed with the image of his beloved.
31. Nothing prevents a woman from being loved by two men, or a man
from being loved by two women.

4.2.11

golden leaves

Margaret, are you grieving
Over Goldengrove unleaving?
Leaves, like the things of man, you
With your fresh thoughts care for, can you?
Ah! as the heart grows older
It will come to such sights colder
By & by, nor spare a sigh
Though worlds of wanwood leafmeal lie;
And yet you will weep & know why.
Now no matter, child, the name:
Sorrow's springs are the same.
Nor mouth had, no nor mind, expressed
What heart heard of, ghost guessed:
It is the blight man was born for,
It is Margaret you mourn for.

e ainda

nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

2.2.11

os peregrinos em inglês

Ah, pilgrims, moving pensively along,
thinking, perhaps, of things at home you miss,
could the land you come from be so far away
(as anyone might guess from your appearance)
that you show no signs of grief as you pass through
the middle of the desolated city,
like people who seem not to understand
the grievous weight of woe it has to bear?
If you would stop to listen to me speak,
I know, from what my sighing heart tells me,
you would be weeping when you leave this place:
lost is the city's source of blessedness,
and I know words that could be said of her
with power to humble any man to tears.

de senectute

envelhecemos devagar, sem o sentir, não decaímos de repente, extinguimo-nos longamente, Cícero XI, 38 (ita sensim sine sensu aetas senescit, nec subito frangitur sed diurnitate extinguitur)

30.1.11

the book of my memory

assenta, como o nome indica, no exercício da memória, essa faculdade humana que tanto partilha do coração (recordar) como da imaginação (os fantasmas da memória).

the turning point

Deh peregrini che pensosi andate,
forse di cosa che non v'è presente,
venite voi da sì lontana gente,
com'a la vista voi ne dimostrate,

che non piangete quando voi passate
per lo suo mezzo la città dolente,
come quelle persone che neente
par che 'ntendesser la sua gravitate?

Se voi restaste per volerlo audire,
certo lo cor de' sospiri mi dice
che lagrimando n'uscireste pui.
Ell'ha perduta la sua beatrice;
e le parole ch'om di lei pò dire
hanno vertù di far piangere altrui.

Ladies who have intelligence of love,

I wish to speak to you about my lady,
not thinking to complete her litany,
but to talk in order to relieve my heart.

é uma questão de esperar, isto é, de ter esperança

é um verbo do futuro; é um verbo que exige o futuro: I hope to go.
hope não quer nada com o passado: * I hoped to go (impossível); para o ressentimento ou a nostalgia só o wish: I wished to go but...
não sei se não há hope em português... então e o verbo 'esperar', que significa "ter esperança e que o dicionário eletrônico houaiss nos diz vir do latim spēro, as, āvi, ātum, āre, derivado de spes, ei, "esperança"?

rappel

é menos interessante. mas também não se paga nada. ou, como diria a outra, "lá está", sempre se contribui como alguma coisa, com o que se pode ou não pode.

26.1.11

when

the inner and the outer are wedded, revelation occurs.

ida e volta

amendoeiras, sobreiros, arroz e vinha - vinha, arroz, sobreiros e amendoeiras

23.1.11

on feeding Love

A ciascun'alma presa e gentil core
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente,
salute in lor segnor, cio è Amore.

Già eran quasi che atterzate l'ore
del tempo che onne s tella n'è lucente,
quando m'apparve Amor subitamente,
cui essenza membrar mi dà orrore.


Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.

Poi la svegliava, e d'esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo.

do wings & things

I do not understand what I do. For what I want to do I do not do, but what I hate I do.

21.1.11

a vida humana

como enciclopédia. no sentido etimológico da palavra.

12.1.11

à dúzia

é ainda o ciclo dos doze: ramos terrestres, animais, tribos de israel, meses do ano, discípulos, horas am e pm, etc. o doze é a completude, a dúzia.
não admira portanto que o número 'doze' aponte para o entendimento maior e para a grande sabedoria - ele é o número do conhecimento adquirido através da experiência da vida, aquele que nos permite a calma no seio da turbulência.
é o 'doze' que marca o fim da infância, logo, como diria la palisse, o começo da fase de maioridade. já chegou a altura, já se está à altura.
negativamente, o doze pode ligar-se à depressão provocada pelo sentimento de resignação com o curso dos acontecimentos.

perdidos e achados

não tenho sido capaz, nos últimos tempos, de encontrar, no vulgar, a glória. dia após dia, cada dia por viver me tem aparecido como se fosse um dia já vivido - a manhã cedo a saber a fim de tarde, a tarde cansada e gasta como uma noite mal dormida, as noites cegas por um branco de néon (felizmente as lâmpadas económicas lançaram já uma nova gama, redentora, de luz amarela), que ao quotidiano remove todo mistério e sedução.
até hoje.