10.4.10

eu e tus: uma sincronia

para mim, como um dom, tinhas representado, no empedrado do pátio da d. ana, apenas com pedras pretas, um belo peixe estilizado,
a meu pedido, pensavas na resolução do buraco - através do qual se via o azul acima do céu mas que de facto conduzia ao imenso abismo branco abaixo - defeito de origem no novo estrado da cama de casal (onde eu dormia solteira) e pelo qual eu tanto temia pudesse cair uma neta nossa cujo pequeno corpo adorado, me escapasse dos braços com que o agarrava, enquanto ela dormia abraçada a mim,
era a mim que acusavas pelo actual desenho absurdo do largo, construído como tinha sido, por um operário a quem eu,

pela mesma ignorância de sempre mas nascida noutro lado, tinha dado carta branca,

era eu que te chamava a mim, por uma qualquer necessidade imperiosa de te confessar, ao mesmo tempo, a minha forte vontade de afastamento e o meu imenso desejo de aproximamento.

9.4.10

facebook

e depois ainda há o FB. em cujo território me aventuro raramente mas sempre produtivamente na medida em que não há incursão que nele faça que não me mostre de onde me vem o medo de lá entrar: primeiro descobri, com espanto aflito, que não havia um chão estável onde pudesse parar, à chegada, quanto mais voltar a pôr os pés no mesmo sítio - o FB é um rio sempre  a correr mas sem destino certo; depois ouvi a algazarra das vozes - uma multidão de pessoas, todas minhas conhecidas mas desconhecidas entre si, a falarem animadamente das coisas mais díspares que imaginar se possa - o FB é uma feira de aldeia onde conhecemos toda a gente mas ninguém em particular; finalmente hoje descobri que não posso lá entrar sem ser vista por todos quantos lá estão nesse exacto momento (e está sempre alguém) e, o que é mais terrível para a minha incapacidade social, ser interpelada - o FB é um pbx (ainda existe tal coisa?) sem operador, razão pela qual qualquer chamada, feita ou recebida, é susceptível de ser interrompida a todo o momento por uma outra chamada - nesta última experiência ainda consegui manter, durante minutos, conversas, em separado, mas ao mesmo tempo, com uma amiga, uma sobrinha, uma neta e um ex aluno, mas a certa altura, a conjugação entre o medo de uploadar para um o que era destinado a outra, a aflição por deixar três penduradas por estar a atender a um, a vergonha por me enganar em todas as mensagens no desejo de escrever rápido,  levaram me a fugir a sete pés sem me despedir de ninguém e convencida de que só mentes muito jovens ou muito flexíveis têm estaleca para aquilo. o FB não é para velhos...
só a imobilidade silenciosa deste blog me convém.

flickr-blog

muito engraçada a diferença entre as atitudes implicadas/proporcionadas pela manutenção destas coisas a que chamamos blogflickr: no primeiro caso sou quase sempre eu a interpelar o mundo, no segundo é sobretudo o mundo a interpelar-me a mim. *


*se, como acredito, o "eu" é (parte integrante d)o mundo, esta distinção não faz qualquer sentido. é um "supônhamos"...

7.4.10

"spastic food era"

esta obsessão ainda não me atingiu. mas também conheci um doente dela.

ida e volta

umas vez declino nomes - quase todos de mulheres, muitas vezes o dela, mas também de um ou outro homem (neste caso variando entre o apelido, o nome próprio e o termo de parentesco), de cães e até de países e cidades ambitados por ambas.
ontem, sob a recente inspiração do pure land budhism, repeti prolongadamente 'amithaba' até que a certa altura dei comigo a visualizar o que aconteceria caso o mantra produzisse o efeito pretendido por todas as conversas; então parei de repente com a lenga-lenga: "espera, se for mesmo para acordar, não abras já os olhos, deixa-me passar para outra coisa, uma ave-maria por exemplo, sob risco de muitas coisas perderem o sentido".
sinto-me cada vez mais a falar com um bebé revivendo a única experiência que tenho de conversar com pessoas que não me respondem. o sentimento deve ser tão forte que já me ouvi a auto referir-me na terceira pessoa...
também as festas que lhe faço são as festas que fiz/faço aos bebé da minha vida ou que estão por minha conta; e acompanho-as instintivamente pela toada do hmmmmmm (o 'm' é a nasal do deleite...) quando a quero embalar no sono ou, se é para a acordar, com as suaves e convencionais admoestações do tipo 'então isto é que é preguiça, vamos* lá a abrir os olhos..."

* só agora, na forma escrita, noto a forma plural do verbo usado (e não posso deixar de repetir, oralmente, incrível, incrível...)

confirmação/inquietação

não sou um caso raro, também a minha amiga l., depois de o pai ter morrido, passou a tratá-lo por 'tu'.*


* mas, nesta questão das formas de tratamento, o que agora me confunde verdadeiramente é o significado do meu progressivo e meio inconsciente deslizar para o 'tu' durante as conversas com a amiga viva que há duas semanas deixou de me responder. 

mindscape


6.4.10

5.4.10

hoje faz anos que...

...

PS. há já anos que todos os dias do ano são dias de anos

memória (do reino do sião)


um dia, duas questões

a ipseidade, isto é, a qualidade de me representar a mim própria como permanecendo a mesma apesar das mudanças que me afectam o corpo (e a alma, o efeito "psi" do corpo?) e a necessidade de me constituir a mim própria, isto é, o desejo de me inventar sem modelo nem destinatário.

4.4.10

o sr. barão

um rio de água muito escura e brilhante na qual muitas e desvairadas pessoas se banhavam deliciadas. talvez mais uma estrada larga de mar nocturno, via líquida mas a descer como só um rio pode descer.
entre os banhistas, que discutiam com intermitente vagar o que poderia vir a ser uma poética da relação, ninguém parecia notar a presença de um barco imenso, atracado ao cais da universidade, cujo dono, um pequeno português sem pátria, casado com uma inglesa, estava ausente em parte incerta.