o número dos convivas à mesa da consoada
aumenta anualmente.
este ano compareceu, pela primeira vez, o pva. trouxe de
presente uma fotografia da zaleta, com pouco mais de um ano, sentada no chão do
jardim, muito compenetrada a abrir um presente de natal. também era um dia de natal
brilhante de sol, aquele. mas não me lembro se o mar se ouvia como hoje.
são convidados que não vêm à espera de
presentes nem ao cheiro de bolo rei - embora bebam sempre do meu vinho. ao
invés - são eles, os mortos, que aparecem aos vivos, sempre carregados de
presentes.
a minha mãe voltou a oferecer me a moldura de cabedal verde escuro em cujo interior desaparece uma fotografia. cara de mulher que ambas
sabemos ser de uma de nós mas nenhuma sabe dizer qual. é a moldura do remorso, desembrulhada no
quarto da quinta (muito mais nítido do que este agora recuperado e que se volta ao mar) durante uma
noite de natal essa sim, em irremediável solidão.
o meu pai confunde-se com um dos três reis
magos (je suis noir mais je suis roi), trazendo para distribuir valiosos
produtos da sua de mim tão longínqua terra natal. entre eles dou um valor muito
especial à nobreza humilde da vida solitária e à independência calada com que se
envelhece e morre.