19.5.07

o tempo

ao fim de três dias tentei meter conversa com um senhor que me parecia "chinês", na casa dos setenta, sempre sozinho e que não falhara, tal como eu, uma única sessão do ciclo hou.
- então tem estado a gostaru?
- ah... isto é só para passar o tempo!
no dia seguinte, ao cruzar-me frente com o mesmo senhor, cumprimento-o defensivamente:
- cá estamos nós outra vez!
- pois... é para passar o tempo!
no último dia, sento-me propositadamente ao lado dele, num dos bancos do átrio:
- então hoje o queé que vamos ver?
- nem sei. eu não percebo nada do que eles dizem nestes filmes. eu onde costumo ir é à cinemateca... lá os bilhetes são só dois euros, é barato e é bom para para passar o tempo...

18.5.07

悲情城市




























a construção da nação mostrada através da descontrução da família. o sentimento da tristeza (悲情) não coloca dúvidas ao espectador mas a cidade (城市)... que cidade denota/conota o título do filme? mais food for thought sobre este filme de hou: como ler, no seu cartaz, a imagem do casamento inscrita na do funeral? o (único) casamento a dar origem a uma nova familia (nação?)? a (única) família que, ao mudar-se para a capital (a cidade?) representa o novo país? a (única) relação na qual a linguagem não é factor de desentendimento e separação mas de compreensão e unidade? e, correlativamente, o que é que a língua escrita (chinesa) representa neste filme sobre línguas?

BBC

vale a pena ler esta reflexão sobre a tabloidização da bbc

17.5.07

童年的往事

o 'passado da infância', título chinês deste filme é, entre os que tenho visto nesta série de obras de hou, a passar na culturgest, aquele onde a questão 'nacional' mais é questionada. a geração declinante, como, em parte, a geração do poder (que durante o filme se torna, por sua vez, na geração declinante), tem a nostalgia da china continental (ou da aldeia de origem da família, onde estão enterrados os antepassados aos quais não é possível prestar homenagem. a geração emergente só toma consciência dessa 'falha' ao aceder ao ao poder geracional, isto é, ao tornar-se, ela própria, na geração do poder na família. como no país, ou melhor, naquilo a que a juventude, pela sua falta de passado 'nacional', acabou por construir como 'nação'. se, até aos anos 80 talvez fosse aceitável a ideia, corrente, de que taiwan era o único "país" do mundo cujo passado estava em 'outro', nas décadas seguintes isso mudou radicalmente - quer porque a situação se alterou completamente quer porque o passado taiwanês, uma vez construído, parece ter deitado raízes no solo local.

冬冬的假期

lindíssimo este filme sobre o verão passado pelo dongdong (冬冬) e pela sua irmã tingting (婷婷) em casa dos avós. depois de termos visto o crescimento a fazer-se à beira-mar, vêmo-lo agora a ocorrer, ainda que numa idade menor, no espaço campestre. concordo que se pode (e até talvez se deva) ver este filme como uma (efémera) passagem pelo paraíso. MAS, poria todas as cautelas no uso do termo 'paraíso'. primeiro, porque nele está presente, em doses semelhantes, o bem e o mal, ou se se preferir, a maior e a menor decência humanas. depois porque a positividade do sentido 'rural' não se opõe a um qualquer sentido negativo do 'urbano'; como nos filmes anteriores de hou, os transportes públicos, que ligam entre si os espaços, dominam a paisagem: os carris do caminho de ferro (a par, naturalmente, da omnipresente circulação do combóio); ecoados, acima, pelos fios da linha eléctrica, também rectos e paralelos (outro modo de ligação); as estradas secundárias, unindo as diferentes partes da aldeia (pessoas)e, sobretudo, a estrada principal, outra linha de ligação, pela qual as crianças regressam, de carro, à casa dos pais, na cidade. linha diferente das outras porque marcada pelas curvas e porque marcadora do fim da história e do (re)começo da vida, ultrapassada que foi, para as crianças, a inocência infantil (com que tinham chegado). finalmente, porque porque não se trata de qualquer paraíso perdido: do ponto de vista interior, ele vai com eles, dentro deles, e do ponto de vista exterior é um espaço real onde eles podem sempre voltar. para fazer filmes, por exemplo. se em feigkuei laide ren se abordava o crescimento a partir da relação filho/pai, em dondongde xia qi, é muito, também, a relação filha/mãe que é pensada. lindíssismo. lindíssimo. humaníssimo. humaníssimo.

風柜來的人

é mais uma vez a humanidade do 'humano', tanto no sentido de ren (人) como de ren (仁) - ainda que, como é o caso, ela apareça como algo difícil de expressar, em palavras e/ou gestos - que nos comove neste filme de hou. também nos comove a atenciosa ternura com que são 'filmadas' as relações entre as pessoas, a mesma com que são 'filmadas' as relações entre as coisas. uma coisa (东西), não sendo de resto, na cultura das línguas han, uma 'coisa' mas uma relação. as pessoas, identificadas no título do filme pela sua origem geográfica (风柜), são os seus protagonistas principais. no entanto, hou não se cansa de nos mostrar como eles, sobretudo na cidade, são também secundárias, exactamente como as pessoas 'reais' entre as quais se movimentam. com efeito, as pessoas do filme são-nos mostradas quase permanentemente atrás, ou misturadas, entre as pessoas do mundo. ou, escondidas atrás dos combóios, autocarros, motos que as transportam. as suas vozes individuais são frequentemente caladas pela voz colectiva da cidade (das pessoas e das coisas). pelo que é possível dizer que neste filme as personagens secundárias são igualmente personagens principais. a história do rapaz termina (quando começa a história do homem em que ele se está a tornar) com uma cena na qual ele se destaca, claramente, da multidão: visualmente, pela altura do corpo (de pé empoleirado num banco, (a)parece mais alto do que os outros); sonoramente, pela altura da voz (o seu repetido pregão sobrepõe-se ao ruído da cidade). mas é só um momento (ainda que simbólico de uma tomada de poder de si). todos sabemos que em breve e, exactamente para fazer a sua vida, ele terá de reentrar na indiferenciada corrente humana que não pára de correr em Kaoshiung como em qualquer outra cidade do mundo.

16.5.07

mensagens

manhã cedo, a caminho do trabalho, tenho o prazer inesperado de me cruzar com a filha duns amigos que conheço desde muito pequenina. o seu belo sorriso aberto ao mundo, ao mesmo tempo doce e trocista, as palavras leves e divertidas que trocamos (que para mim são as primeiras do dia) têm o condão de aligeirar o meu andar de forma notória. já no escritório, mensajo à mãe dizendo-lhe que, embora sabendo que ela decerto sabe, me apetece escrever, ali, branco no azul, que adoro, literalmente, a filha dela. ainda não tinha fechado a tampa do telemóvel e já a minha amiga me mensajava de volta, numa aflição tangível: "mas porquê? o que é que se passou?". fiquei a perguntar-me se ela não teria ficado mais descansada se eu lhe tivesse dito que não gostava nada da filha...

aialma portuguesa

as cores do parque automóvel português parecem-me ser um claro sinal do actual estado de espírito português (para historicizar um pouco o que se chama muita vezes a 'alma' portuguesa ou a 'essência' nacional): em cada três carros, dois são cinzentos e o outro é preto. nem os táxis salvam a desoladora paisagem com o seu 'begezinho' (outros dirão 'cremezinho') cor 'clarinha' (não 'clara') ainda mais patética do que os escuros gerais. onde estão os encarnados, os cor-de-laranja e os amarelos existentes noutras cidades do mundo? e os verdes, os azuis, os cor-de-rosa exibidos por condutores de outros países? os carros portugueses são como os seus donos: maçadores, bem penteados, formais, engraxados, apagados, diplomados, baços, engravatados. aposto com quem quiser que os raros carros garridos e divertidos que por aí circulam pertencem a mulheres. dar-se-á o caso de, em portugal as mulheres estarem a ser menos portuguesas do que os homens? era uma esperança para o país...

underground

dizia uma rapariga para a outra: "ele que não pense que eu vou pôr uma pedra sobre o meu sentimento de ressentimento".

14.5.07

san sheng wanwu (ou 'meng mu')

o china daily anuncia hoje que no próximo dia 18 se celebrará, pela primeira vez, na china, o "dia da mãe". a data escolhida é a do nascimento da mãe de mêncio (filósofo do século IV ac), representada, na literatura clássica, como exemplo de devoção e amor maternais. a iniciativa é da "sociedade para a promoção da festa das mães chinesas", que, e de acordo com o jornal, é uma organização não governamental que tem o apoio de cerca de "100 intelectuais confucionistas e professores de ética". as flores a oferecer às mães devem ser os lírios (e não os cravos como, diz o jornal, é costume no ocidente) porque se trata de um dia da mãe "com características chinesas". o lírio era a flor que tradicionalmente as mães plantavam aquando da saída de casa dos filhos. o movimento, que considera esta iniciativa importante para "revitalizar a cultura tradicional da piedade filial", admite ser difícil a sua popularização na sociedade chinesa. daí que planeie enviar, nos próximos anos, panfletos em apoio da piedade filial a cerca de um milhão de estudantes. dos seus planos faz ainda parte a construção de um parque temático sobre a cultura da maternidade em zoucheng, o local onde a mãe de mêncio o terá dado à luz.

nota: porque não o dia do nascimento da mãe de confúcio, o primeiro sábio, nesta linhagem, em vez da mãe do número dois? avento duas hipóteses: como estratégia de afastamento do cristianismo, onde o 'dia da mãe' se confunde com o dia da mãe do deus; como estratégia de aproximação ao cristianismo, onde a figura maternal se sobrepõe à do casal parental (a virgem engravida do espírito santo, casa com josé e o pai do seu filho é deus; ora, mêncio, ao contrário de confúcio, que aparece na mitologia que o rodeia com um pai e uma mãe, é representado como filho, não sei se de mãe solteira mas, pelo menos, de mãe sozinha a braços com a difícil tarefa de educar, sem ajuda paternal, um filho rebelde.

verde, te quiero (?) verde

por mais que puxe pela cabeça não consigo perceber o sentido da 'mensagem' veiculada pelo pequeno bonceo verde, há alguns dias espalhado por várias paredes da cidade de lisboa. trata-se da representação de uma cruz suástica a ser deitada para dentro de um recipiente acompanhada pela seguinte legenda: "há coisas que não se reciclam". não se reciclam porque não servem para nada? porque sendo feitas de uma matéria de tal modo nefanda, nenhum processo as pode transformar noutras (coisas úteis)? esta interpretação leva a pensar que o nazismo deve ir directamente para o lixo onde será, não transformado, mas exterminado de uma vez por todas. ou é uma coisa que não se recicla porque ainda é útil? porque a sua forma ideológica original deve ser preservada? em suma, está o personagem verde a sugerir-nos que deitemos fora ou que guardemos dentro aquela coisa que, representada por uma cruz suástica, "não é reciclável"? talvez alguém me possa elucidar para que da próxima vez que passar pelo boneco verde, poder cuspir-lhe em cima ou desejar-lhe bom dia.

design de interiores

já não era só a tinta caída aqui e ali, agora eram também bocados da própria parede que faltavam. mais do que o aspecto degradado de algumas partes da casa (num dos cantos de uma parede eram mesmo visíveis os tijolos e os ferros - que deviam estar escondidos - devido à queda do estuque), o que realmente assustava na imagem era a leviandade distraída dos moradores. a sua prolongada cegueira ao que não queriam, ou não conseguiam, aceitar. a sua patética convicção de que qualquer construção, exactamente por ser construída, é susceptível de ser eternamente reconstruída.

13.5.07

er sheng san

o que une os milhares de pessoas hoje reunidas em fátima é (um)a mãe. por essa figura maternal fizeram mais ou menos longas viagens, percorreram mais ou menos penosos caminhos. é à mãe que pedem, ou agradecem, algo importante nas suas vidas. não é, claramente, o pai. Pai cuja natureza divina torna susceptível de ser presentificado. desde que, naturalmente, personifiado por representante e em local apropriados. poder-se-á argumentar que em fátima se trata tanto da mãe como do pai já que ela só é 'nossa' mãe por ter sido mãe 'dele'. mas isso leva a um beco sem saída: como pode a nossa mãe ser também a mãe do nosso pai? mais, sendo a (nossa) mãe também filha do (nosso) pai, como pode tê-lo concebido e parido? poder-se-ia ainda recorrer ao argumento que ela é mãe de Cristo (que é filho e não pai) e não de deus (que é só pai). só que cristo é deus, logo pai dos humanos, entre os quais da virgem maria. por perpassa o fascínio do cristianismo, a religião que se cruza com a história ao fazer homem o deus. ora, e regressando a fátima, exactamente, a virgem-mãe não é deus(a). a sua virgindade, ainda que dogma de fé, não lhe confere qualquer natureza divina. ela masceu do coito entre humanos, com um corpo preparado para conceber e parir outros humanos: equipado com ovários e útero, menstruava todos os meses e, no pós parto, fabricava o leite necessário à vida do seu humano filho. só assim, de resto, tem sentido a ideia do deus que pertence simultanemamente ao tempo da eternidade e ao tempo da história. a questão que hoje coloco (o dois produz o três) só aparentemente vem no seguimento da do post de ontem (o um produz o dois). aqui trata-se de saber qual das duas identidades da virgem-mãe(co)move os peregrinos em fátima. a mim parece-me claro que é o seu lado maternal e não o virginal. é por a virgem-mãe ser mãe que se lhe reconhecem os dotes de doçura, piedade, intuição e astúcia, tidos como eficazes para intervir, a favor dos filhos, junto (da autoridade d)o pai. não é por ela ser virgem que é sentida como estando mais perto dos humanos, mais acessível aos seus pedidos, é por ser mãe. a concordar-se com o que acima se diz, importa então pensar, a respeito do 13 de Maio, em fátima, sobre a necessidade de haver um intermediário na relação pai/filho; e também, sobre o facto da intermediação se fazer sobretudo, neste como noutros planos, através da figura da mãe. teremos um deficit ou um superavit? e de qual dos progenitores?