16.10.07

telegrama de rectificação

a glória do vulgar, no seguimento dos protestos que tem vindo a receber, por telefone e por e-mail, quer tornar pública a seguinte rectificação: no e-mail anterior, onde se lê 'fazer frentes' deve ler-se (não 'fazer frente' muito menos 'fazer trases') mas 'puxar frentes'. trata-se de uma expressão da gíria profissional dos empregados de supermercado (o que em parte justifica o seu desconhecimento por parte dos intelectuais, sempre ignorantes de tudo o que se refere ao trabalho manual) que denota a acção de deslocar para a frente, no espaço das prateleiras, os produtos colocados na fila de trás sempre que eles ficam postos a descoberto mercê da passagem de vagas de consumidores terem varrido os produtos colocados à sua frente.
assinado: a glória do vulgar

parabéns bakerinha

primeiro foi o orgulho pelos hanzi (ainda me lembro da minha recorrrente e pirosíssima metáfora da arca cheia de pedras preciosas). depois o orgulho pelas bebidas e comidas (once servidas a uma anabela estupefacta). em seguida vem o imenso orgulho pelos pães (cozedura, distribuição e reposição de frentes). agora surge o orgulho pelos dólares e outras importantes divisas como o yuan e o euro! falta-me a imaginação para inventar o que virá no futuro...

"estas modernices..." (private joke para MC)

a metáfora de que se deve governar o país como quem frita peixes muito pequenos, isto é, mexendo-lhes o menos possível, cada vez me parece mais susceptível de ser aplicada a outras governações menos públicas ou mais privadas. se o óleo for de boa qualidade e estiver na temperatura adequada, se as criaturas a fritar tiverem sido bem embrulhadas em farinha, nem demais nem de menos, é só metê-las com todo o cuidado na frigideira e esperar que elas se fritem sozinhas, sem as virar ou mexer de um lado para o outro. a visão do mundo supostamente daoista desta historia é a mesma da visão mundo subjacente à mui confucionista história do camponês de song: quando ele pretendeu apressar o natural crescimento das suas plantas puxando-as para cima, matou-as a todas.

já que estamos na cozinha aproveito para deixar indicação do blog ardeu a padaria, onde se podem encontrar fantásticas receitas de cozinha. ouvi uma entrevista que o autor deu ao programa de domingo sobre blogs e fiquei com muito boa impressão dele. como cozinheiro mas sobretudo como pessoa.

15.10.07

mais correlações do tsai

o banho nupcial: na narrativa do real ela lava cuidadosamente os pés, a parte do corpo que ele vai abraçar (usar para fumar e adormecer abraçado a)/na narrativa musical ele lava o corpo todo que ela (não) vai abraçar.
a nuvem no céu: a mesma nuvem branca, pintada no azul do tecto, por sobre a cama onde dormem, em separado, os dois apaixonados marca o sono de ambos. só que o dela é regido por eros (sonho erótico) o dele por thanatos (o branco do tecido com que ele se cobre, antes de adormecer, é a cor do luto nesta parte do mundo).
o útero mental: os dois apaixonados engravidam-se um ao outro metendo coisas redondas debaixo das t-shirts respectivas: ela a melancia, ele a cabeça dela.
o parto: a rapariga taiwanesa consegue expelir a melancia, a rapariga japonesa não consegue expelir a tampa da garrafa.
a vida: a planta recupera com a água, a actriz porno morre pela água (regada sucessivamente pelo esperma, pela água suja que finge o suor do corpo, pela saliva da rapariga que em vão a tenta fazer voltar a si).
a voz: começa por entoar uma doce cantilena, no elevador, passa a gemer, na cena final, até acabar a gritar ficamos sem saber se de prazer ou de horror.
a política: mao zedong na narrativa do real, chiang kai-shek na do musical.
o sangue: filme marcado pelos diferentes fluidos que escorrem do corpo ou para o corpo, nota-se a ausência do sangue. ou melhor, sente-se a sua presença sob a forma da aguadilha vermelha que escorre das melancias.
a melancia: símbolo de liberdade e vida para uma que a lava e oferece a beber, é emblema da sujeição para a outra que assepticamente a transporta (fardada de enfermeira) para a cena na qual é forçada a comê-la.

14.10.07

fluidos corporais: esperma, suor e lágrimas

a única troca verbal entre os jovens apaixonados aparece sob a forma de uma pergunta “ainda vendes relógios?” feita pela rapariga que noutro filme o encontrara nessa actividade. ao que o rapaz agora actor porno responde negativamente limitando-se a abanar a cabeça. diz o realizador algures: My films are a dialogue with myself. At the moment my feeling is, that I want to discuss the body. Body language, bodily needs, bodily functions – what the body is trying to say, that we cannot articulate verbally.
é difícil dizer-se que se adorou um filme que nos foi tão incómodo de ver. no entanto foi o que me aconteceu. um filme que filma a filmagem de filmes pornográficos, embora não sendo pornográfico, ou exactamente por não o ser, é muito mais violento e insuportável do que um filme pornográfico no qual, supostamente, não há sentimentos, mas tão só sexo. neste filme sobre filmes pornográficos, em certo sentido, pode-se dizer que não há sexo, só sentimentos. senti este filme, das duas vezes em que o vi, como um dos mais sentimentais (amor romântico) que já vi. diz o realizador algures: It is not important, what the film is trying to tell you – but what you feel about it. Think about, what you feel.
a cisão operada entre o sexo e o sentimento, na relação amorosa, resulta do facto de eles viverem num e de mundo onde o corpo se transformou numa mercadoria. diz o realizador algures: Today the body is a commodity. People sell their bodies; people watch pornography without thinking of the cost to the bodies involved.
a espantosa construção de imagens, através das quais sentimos essa (im)possibilidade do sexo, assenta na rima. neste filme as imagens rimam como as palavras num poema. e, como na poesia, é o seu paralelismo, por complementaridade ou por oposição, que faz avançar a narrativa. cada imagem prenuncia, como que contém, a imagem seguinte. cada imagem contém restos da imagem anterior, num processo sem fim de contaminação e engendração mútua.
este processo constrói, tanto a relação entre as duas narrativas paralelas (silêncio/efeito do real versus música/efeito do artifício), como as relações entre as duas sub-narrativas dentro da narrativa principal: a sub-narrativa sobre o sentimento sem sexo possível (ou o sexo tornado (im)possível) e a sub-narrativa do sexo sem sentimento.
para só recordar algumas: as lágrimas a escorrem pela cara da protagonista rimam com o suor a escorrer pelo rabo do protagonista (desta vez produzido pelo corpo e não por um artifício exterior); as ‘coisas’ pessoais que as duas raparigas perdem rimam entrem si numa relação de oposição: a pestana, que se esperaria vir do corpo, é artificial, e a chave, que não se esperaria ter a ver com o corpo, é para ele que remete (a virgindiade); a tampa da garrafa (com que a rapariga japonesa se masturba) esterilmente no interior do corpo rima com a melancia produtivamente no interior da cabeça da rapariga taiwanesa (útero mental a comprovar que o ovo precede o pinto). a melancia que num caso se bebe, e oferece para beber (sendo recusada) e noutro é comida à força (sem força para recusar). para não falar da melancia, a mais óbvia, mãe de todas as imagens deste filme. não por acaso, ela é-nos apresentada logo no início do filme, transportada pela actriz porno para ser usada como sua vagina artificial no único filme pornográfico a que assistimos realmente (nos outros apenas vemos o processo de produção, não o produto final). a metáfora cujo significado vai sendo reconfigurado ao ritmo do desenvolvimento da relação amorosa.
tocam-me particularmente neste filme os sinais por que nos é mostrada a força da vida e que, talvez, se possa fazer equivaler à força da relação de troca afectiva. relação que é também reacção como acontece no crescimento súbito e no activo fervilhar dos alimentos/ingredientes cozinhados; ou no fio de água que emerge do solo quando, em plena seca na cidade, o protagonista masculino consegue desenterrar, da camada de alcatrão, a chave da mala da protagonista feminina - a mala fechada, vinda de outra cidade e de outro filme, que nesta cidade e neste filme não chegará a ser aberta.
gostaria ainda de guardar, para memória futura, a nuvem que vi pintada no tecto do quarto de cama. a nuvem que dá o nome ao filme, tianbian yi duo yun, isto é, uma nuvem no horizonte. nuvem que, segundo Tsai, é como qualquer humano: vogando em aparente liberdade, na realidade o seu movimento é condicionado pelo vento pelo que qualquer encontro com outra nuvem não pode ser senão passageiro. daí que todos eles sejam preciosos.

11.10.07

almoço com o vítor

- olha, aquilo é do at!
- pois é.
- mas é mesmo?
- então não vê que sim...
- mas por que raio é que neste restaurante está pendurado um desenho do at?
- o vítor vinha cá sempre almoçar. deve ter sido a concha que o deu.
- boa, então almoçamos com ele(s).

10.10.07

minor scandal

durante a compra do colchão, com particular relevância para o tempo claro-escuro que passámos deitadas ao comprido na cabine da nave espacial, duas ideias repousaram lado a lado na minha cabeça. uma tinha a forma de uma pergunta: se é verdade, como constato, que o espírito toma a forma do que pensa, qual será a sua morfologia quando se deixa esvaziar de pensamentos? a outra, embora semelhante a uma pergunta, era uma angústia , ou melhor, era uma pergunta retórica: será alguma vez possível sair do espaço fechado em que o modernismo nos encerrou ao amarrar a forma à função?

8.10.07

ficha de leitura

com-paixão sem paixão.

7.10.07

uma casa dois mundos











antes do mais bread and roses. logo depois, ken loach. e portanto, o vento nos campos de cevada e a voz do arquitecto a recusar, nas aulas, a abertura do seu bag of tricks. o prazer da literalmente chamada conversa pegada - sucessão ininterrupta de conversas, a qualquer hora do dia ou da noite (da apple à irlanda dos anos 20, passando pelo prazer comum dos bróculos ou pela constatação da impossibilidade de dizer grelos em inglês - não têm palavra para o referente, mais, não têm referente portanto não têm ideia, nem som, nem signo escrito, também o exemplo do hanson (ou 'de' hanson?) a não funcionar em português onde a vaca tem o mesmo número de pernas que as letras da "vaca", diferentemente do que se passa nessa língua simultaneamente tão estranha e tão familiar - pelos sonhos pesados, nos quais um pouco esterilmente representamentos os nossos próprios papéis, pelos mais pequenos e sua respectiva educação parental (assunto sobre o qual voltamos a estar de acordo), pela tua sedução com a tecnologia e perplexidade filológica ("grelo" tem conotação positiva ou negativa?) e pelos meus ambíguos pequenos prazeres solitários, padre dâmaso e afins. o que, no que à minha pessoa (adoro a ideia de ter uma pessoa só para mim) diz respeito, prova que o dinamismo da onda gigante (xin chao?) abatida sobre a estagnação das back waters, não tem força suficiente para apagar o fervilhar da vida que, de forma invisível e inaudível, se processa abaixo da sua superfície.
nada disto é verdadeiramente inesperado: há uns anos atrás, ao mesmo tempo que tu escolhias os teus primeiros binóculos sonhava eu com a minha primeira lupa; só não previmos, nessa altura, o meu renovado gosto em espreitar o longe através dos teus binóculos, nem o teu continuado prazer em observar de perto o que está perto, prazer de ver, em tamanho aumentado, o que, por ser de tamanho reduzido, raramente se deixa ver.