23.12.10

do olhar o mundo

abro os olhos abro-os muito largos. os olhos cada vez mais largos lagos largo-os húmidos e frescos como de uma chuva que sabe a orvalho. são já os olhos que se abrem só por si alastrando líquidos pela cara que me molham os cabelos. transbordam para o mundo sempre mais abertos o mundo lhes transbordando para dentro - olhos ao verem e mundo por serem vistos.

17.12.10

sunless


L 'éloignement des pays répare en quelque sorte la trop grande proximité des temps.
Jean Racine, Bajazet


Because I know that time is always time
And place is always and only place
And what is actual is actual only for one time
And only for one place.
T. S. Eliot, "Ash-Wednesday"

11.12.10

neste fim de semana que,

por razões invulgares, começou na sexta-feira, leio os diários íntimos do Baudelaire. de onde agora copio, aqui, letra a letra, algumas frases (textos sem os contextos, escolhidos por muitas e desvairadas razões)
le visage humain, que ’Ovide croyait façonné pour refléter les astres
(le) sommeil, aventure sinistre de tous les soirs
Sa poésie représente les heures heureuses.
je ne conçois guère (...) un type de Beauté où il n’y ait pas du Malheur
Je laisserai ces pages, parce que je veux dater ma colère. Tristesse
La femme est naturelle, c'est-à-dire abominable
Aussi est-elle toujours vulgaire, c'est-à-dire le contraire du Dandy
la création ne serait-elle pas la chute de Dieu?
Étude de la grande Maladie de l'horreur du Domicile
C'est par le loisir que j'ai, en partie, grandi

facebook

is softly killing glória do vulgar.
the truth is that fb is so much more gloriously vulgar than gloria itself.

7.12.10

é claro que

existo. e resisto: insisto sempre que desisto. posso até dizer, como o resto do mundo, que a minha vida costuma ser um misto. 

4.12.10

no meu bestiário

toma agora forma o cão - não o animal grande e repousado, repousante, dos meus sonhos, mas uma coisa pequena, agitada e mordedora. que não pára de me morder os dedos dos pés, debaixo da mesa onde janta, alargada (e aknowledged) a família.

2.12.10

facebook

passei a gostar do FB. longe vai o tempo em que me sentia a entrar na meia praia em agosto. o FB, sem eu saber bem como, passou a ser uma janelinha na qual me debruço, geralmente de manhã e à noite, a ver quem passa e a ouvir o que se vai dizendo na (minha) rua.
umas vezes meto-me na(s) conversa(s), outras finjo que não a(s) oiço. há quem se meta comigo, e eu dê troco divertida, e há quem se meta comigo e eu finja não ter ouvido. também há quem passe sem me cumprimentar.
mas, do FB, o que eu agora aprecio realmente é a oportunidade de conversar com a clara e o francisco. os diálogos começam geralmente por um "avoooooooooooooooooooooo" gritado de VB e ouvido distintamente em Lx. ao que se segue, do meu lado, um vocativo do género "Kaikas! tá aí?" ou "meu querido!, ou será querida?" (ontem a resposta imediata foi "querida").
e ontem era dia 1 de dezembro, feriado que expliquei pelo casamento do avô t. com a avó e. "a sério avó?". tão a sério. mas também falámos das dependências entre os reis portugueses e espanhóis e como a sorte, nesse jogo real, tinha calhado a um filipe de espanha.
confirmado o andamento na escola e o bem estar da minha most sweet room mate, não faço mais perguntas para não obrigar a minha neta clara a ficar ali parada, à minha janela, a conversar comigo. e, em menos  de nada oiço a sua voz a perguntar uma coisa a um vizinho, que eu não conheço, e, quase ao mesmo tempo, a responder a uma amiga cujo nome me é familiar.
não sabem o que dizem os que dizem que a internet nos fecha em nós próprios.

30.11.10

habitus linguístico(s)

habito com gosto as línguas que falo e leio. é exactamente por as habitar que posso dizer, sem escândalo, que sim, são minhas todas as línguas cuja sonoridade me fala, todas as línguas cujo código escrito faço falar. afinal, se nem a língua materna é nossa por que razão não hão-de ser nossas as línguas (em) que habitamos? 

numa aula de pós graduação

aluno: mas isso é comunismo...
professora: e então?
aluno: é marxismo... a teoria dele é marxista!
professora: sim... mas nós não somos marxistas ... todos?

finalmente

que bom, comecei as aulas. o mesmo quieto entusiasmo. 
o que irei aprender, este ano lectivo, com os meus novos alunos?
学生们你们好!