3.3.10

recordações da casa da vela

só se revive o que se vive, o que (se) viv-eu. embora haja de haver mais do que uma razão para de tantas vidas vividas não viver eu mais do que duas ou três.
quando sou a avó algarvia, deixo o pão endurecer na caixa de madeira e faço uma açorda para comer com uma xícara de café. ou serão papas de milho? 

vol-ao-vento era para a praia. grandes alcofas, forradas a guardanapos de linho, todos os dias, depois do meio dia, desciam até nós nos braços de duas criadas, uma sempre maria benta, outra de nome mais incerto.
cá de cima, assentada no meu  trono de palha - cujo forro de lona às riscas coloridas me protege o inchaço das pernas - desinteressa-me a refeição lá em baixo. só vejo o azul que me cega, a única consciência é a do ruído dos ralos. 

serei desejada, princesa solteira ou rainha viúva, na meia laranja, os trambolhos dos meus pés - que agora revives como pés em chinesa de tempo antigo e de alta condição? ou será a real conta da farmácia o que realmente conta? asnos como eu havia de ter de-terminado. 
porque não sobe a maribenta para me trazer o meu polícia? aborrecem-me as pernas deformadas mais do que a inutilidade do coração...
- a madrinha deve ter-se esquecido do seu rosário no oratório...
- deixa estar filha, deixa estar que agora não tenho onde o guardar... então não vês que a maribenta não há meio de voltar da praia para me trazer o policia?!
- mas a madrinha quer que eu meta o rosário lá dentro?
- não filha, deixa estar...

- mas basta a madrinha dizer onde está o polícia...
- oh filha não me aborreças agora com isso que mais do que as contas do rosário  são as da farmácia que eu não dou conta...
- a madrinha desculpe então a minha insistência.
impertinência, filha, impertinência.

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