5 years ago
26.1.12
escultura no picadeiro
umas têm bastante graça, outras têm uma história atrás, outras exibem o nome à frente; várias são engenhosas, algumas ruidosas, tantas aparatosas. em absoluto contraste com esta simpática vulgaridade plebeia, destaca-se a aristocrática peça do rui abreu - silenciosamente bela, elegantemente discreta, ela fala-nos sem palavras, comove-nos sem gestos. a força suave da madeira, a leveza da curva imperceptível, o ímpeto ascencional, a peça lembra o arquétipo de uma alma que se eleva a caminho da sua própria dissolução.
gracias a la vida
uma caldeirada de chocos (de onde viriam as parcas ervilhas que boiavam no molho?) muito boa, honesta seria a palavra que melhor a descreveria, numa tasca, quente de gente (conhecida entre si e acolhedora dos estranhos como eu) da trafaria.
costuma dizer-se que a vida dá voltas e a volta que eu ontem dei - ao partir da rua da junqueira, às 7 e pouco, para só chegar a casa depois 1 da manhã - aí está a provar a verdade do volteo.
não fora ter tido de abandonar o meu adorado carrinho na trafaria, ainda que sob a protecção dos bombeiros, e a volta teria valido a pena: a delícia macia dos chocos e das conversas com os outros comensais (alheados do meu mini drama interior excepto o bombeiro casadoiro que minutos depois nele havia de arbitrar), o brilho escuríssimo da água (partilhado apenas por uma outra mulher, alta e doce, cujo rosto de despedia comovida me acompanha ainda hoje), até a outra tasca já do lado de cá cheia de homens de várias línguas diferentes a verem o mesmo jogo de futebol, foram voltas que, se a vida não me tivesse feito dar, eu não teria dado. o que me teria deixado mais cinzenta e tristonha, o dia de ontem igual ao de amanhã. há uma canção da mercedes sosa, lindissima, cujo refrão tem que ver com este sentimento - gracias a la vida, talvez.
costuma dizer-se que a vida dá voltas e a volta que eu ontem dei - ao partir da rua da junqueira, às 7 e pouco, para só chegar a casa depois 1 da manhã - aí está a provar a verdade do volteo.
não fora ter tido de abandonar o meu adorado carrinho na trafaria, ainda que sob a protecção dos bombeiros, e a volta teria valido a pena: a delícia macia dos chocos e das conversas com os outros comensais (alheados do meu mini drama interior excepto o bombeiro casadoiro que minutos depois nele havia de arbitrar), o brilho escuríssimo da água (partilhado apenas por uma outra mulher, alta e doce, cujo rosto de despedia comovida me acompanha ainda hoje), até a outra tasca já do lado de cá cheia de homens de várias línguas diferentes a verem o mesmo jogo de futebol, foram voltas que, se a vida não me tivesse feito dar, eu não teria dado. o que me teria deixado mais cinzenta e tristonha, o dia de ontem igual ao de amanhã. há uma canção da mercedes sosa, lindissima, cujo refrão tem que ver com este sentimento - gracias a la vida, talvez.
23.1.12
só agora
te descubro como foste antes de mim - sensual. as fotografias velhas, no entanto, apenas me falam do teu "erotismo inteligente", elas não me contam as razões do teu progressivo apagamento interior. não posso ter sido eu... até porque, nos nossos primeiros anos juntas, está ainda presente - na cara, nos olhos, na cintura - a mesma nota radiante. foi a doença? o exílio familiar? a morte da tua mãe? não posso ter sido eu.
14.1.12
12.1.12
5.1.12
a vida como experiência
implica a mesma abertura, igual curiosidade e idêntica ausência de expectativas - como qualquer trabalho de investigação.
25.12.11
mais acompanhados são os natais que se passam sem companhia
o número dos convivas à mesa da consoada
aumenta anualmente.
este ano compareceu, pela primeira vez, o pva. trouxe de
presente uma fotografia da zaleta, com pouco mais de um ano, sentada no chão do
jardim, muito compenetrada a abrir um presente de natal. também era um dia de natal
brilhante de sol, aquele. mas não me lembro se o mar se ouvia como hoje.
são convidados que não vêm à espera de
presentes nem ao cheiro de bolo rei - embora bebam sempre do meu vinho. ao
invés - são eles, os mortos, que aparecem aos vivos, sempre carregados de
presentes.
a minha mãe voltou a oferecer me a moldura de cabedal verde escuro em cujo interior desaparece uma fotografia. cara de mulher que ambas
sabemos ser de uma de nós mas nenhuma sabe dizer qual. é a moldura do remorso, desembrulhada no
quarto da quinta (muito mais nítido do que este agora recuperado e que se volta ao mar) durante uma
noite de natal essa sim, em irremediável solidão.
o meu pai confunde-se com um dos três reis
magos (je suis noir mais je suis roi), trazendo para distribuir valiosos
produtos da sua de mim tão longínqua terra natal. entre eles dou um valor muito
especial à nobreza humilde da vida solitária e à independência calada com que se
envelhece e morre.
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