26.1.12

escultura no picadeiro



umas têm bastante graça, outras têm uma história atrás, outras  exibem o nome à frente; várias são engenhosas, algumas ruidosas, tantas  aparatosas. em absoluto contraste com esta simpática vulgaridade plebeia, destaca-se a aristocrática peça do rui abreu - silenciosamente bela, elegantemente discreta, ela fala-nos sem palavras, comove-nos sem gestos. a força suave da madeira, a leveza da curva imperceptível, o ímpeto ascencional, a peça lembra o arquétipo de uma alma que se eleva a caminho da sua própria dissolução.

gracias a la vida

uma caldeirada de chocos (de onde viriam as parcas ervilhas que boiavam no molho?) muito boa, honesta seria a palavra que melhor a descreveria, numa tasca, quente de gente (conhecida entre si e acolhedora dos estranhos como eu) da trafaria.
costuma dizer-se que a vida dá voltas e a volta que eu ontem dei - ao partir da rua da junqueira, às 7 e pouco, para só chegar a casa depois 1 da manhã - aí está a provar a verdade do volteo.
não fora ter tido de abandonar o meu adorado carrinho na trafaria, ainda que sob a protecção dos bombeiros, e a volta teria valido a pena: a delícia macia dos chocos e das conversas com os outros comensais (alheados do meu mini drama interior excepto o bombeiro casadoiro que minutos depois nele havia de arbitrar), o brilho escuríssimo da água (partilhado apenas por uma outra mulher, alta e doce, cujo rosto de despedia comovida me acompanha ainda hoje), até a outra tasca já do lado de cá cheia de homens de várias línguas  diferentes a verem o mesmo jogo de futebol, foram voltas que, se a vida não me tivesse feito dar, eu não teria dado. o que me teria deixado mais cinzenta e tristonha, o dia de ontem igual ao de amanhã. há uma canção da mercedes sosa, lindissima, cujo refrão tem que ver com este sentimento - gracias a la vida, talvez.

23.1.12

o que me ensinou a viver sem medo foi a vida. é verdade, foi a vida que me obrigou a viver bem. não foi outra coisa nem de outra maneira. os sonhos, esses nunca me ensinaram nada - a não ser o meu medo horrível de viver.

só agora

te descubro como foste antes de mim - sensual. as fotografias velhas, no entanto, apenas me falam do teu "erotismo inteligente", elas não me contam as razões do teu progressivo apagamento interior. não posso ter sido eu... até porque, nos nossos primeiros anos juntas, está ainda presente - na cara, nos olhos, na cintura - a mesma nota radiante. foi  a doença? o exílio familiar? a morte da tua mãe? não posso ter sido eu.

14.1.12

zézinha

it's me.

12.1.12

desde manhã

assim te mãtenho.
sr. brito, d. teresa.
e tantos outros.

5.1.12

a vida como experiência

implica a mesma abertura, igual curiosidade e idêntica ausência de expectativas - como qualquer trabalho de investigação.

estar em Lagos

é como brincar às casinhas.

25.12.11

mais acompanhados são os natais que se passam sem companhia


o número dos convivas à mesa da consoada aumenta anualmente. 

este ano compareceu, pela primeira vez, o pva. trouxe de presente uma fotografia da zaleta, com pouco mais de um ano, sentada no chão do jardim, muito compenetrada a abrir um presente de natal. também era um dia de natal brilhante de sol, aquele. mas não me lembro se o mar se ouvia como hoje.

são convidados que não vêm à espera de presentes nem ao cheiro de bolo rei - embora bebam sempre do meu vinho. ao invés - são eles, os mortos, que aparecem aos vivos, sempre carregados de presentes.

a minha mãe voltou a oferecer me a moldura de cabedal verde escuro em cujo interior desaparece uma fotografia. cara de mulher que ambas sabemos ser de uma de nós mas nenhuma sabe dizer qual.  é a moldura do remorso, desembrulhada no quarto da quinta (muito mais nítido do que este agora recuperado e que se volta ao mar) durante uma noite de natal essa sim, em irremediável solidão.

o meu pai confunde-se com um dos três reis magos (je suis noir mais je suis roi), trazendo para distribuir valiosos produtos da sua de mim tão longínqua terra natal. entre eles dou um valor muito especial à nobreza humilde da vida solitária e à independência calada com que se envelhece e morre.