16.9.10

gostava muito

de conseguir escrever palavrões. é que há textos que só com eles (não muitos, bastam dois ou três) podem ser escritos. ora, como não consigo escrever palavrões, fico com muitos textos por escrever. ou melhor, por publicar. na verdade permanecem aqui por baixo, saved as drafts (o que me permite o pequeno gozo de os reler de vez e quando)

podia ser tavira

na festa o dennis aparecia, boinas de aveia e qualquer coisa como chapéus de chuva de gelado grande. mesa algarvia com figueira e escada para figos.
todos a irem a médico amigo que recusa dar zoloft a quem mais precisa. giro o médico noto. 
éramos quatro, electrocardiogramas, etecétera que é outro nome para a história (g.s.).
eu no fim digo que não faz mal porque, "sendo de cá" posso sempre voltar. e calo o gozo por o que quero ser nostálgico, por estar de fora.

on onipotência

qual omni fotografas? qual omni (d)escreves (palavras e acções)? 
então onde posso ver as águas escuras e paradas onde boia(va)m telemóveis? como disseste as rochas cinzentas esburacadas onde, em vez (ou além) das muitas formigas em labor exposto, repousa(va)m meio escondidos alguns telemóveis? e o ambiente decadente da clínica, o psicanalista despenteado em roupão e chinelas cor de rosa? com que palavras representar todas as sensações, emoções, recordações,  intuições e constatações que são, acima de tudo, de natureza não verbal? 
não, nem a realidade é representável nem o mundo é domesticável. nas palavras e nas imagens com que nos pretendes fazer crer que mostras o real, vejo apenas sombras projectadas de outras sombras.

em vão

me esforço por ouvir em sonhos o imenso barulho dos cavalos descendo de rompante a avenida da liberdade na tarde em que se procedia, nos restauradores, a um rastreio auditivo da população.

praia da luz

imprevisível a dimensão e a sensibilidade do superego do jardineiro.

13.9.10

com(em)oção



e eis que de repente encontro, fora de mim, o meu próprio coração.


o meu próprio coração a olhar-me a direito, o sorriso entre o doce e o trocista.


como ele é quando lhe acontece ser quem TU o
fazes.

8.9.10

Fish Music




For Pascale Petit

He struggles into his borrowed human skin,
the one he wears for special occasions
with the sewn-in dinner jacket and polished patent feet.
He brushes off earth and other traces of night,
Smells the remnant darkness on his sleeve,
Bends back the fingers that constitute his living,
And picks up the instrument. His mother is listening
In the next room, holding her breath for him,
The breath she has been saving all her adult years.

After the skin, the fish scales. One must glitter.
One must swim through the day. He flicks his tail
This way and that. He makes the first sounds
Those scraped sighs that are the sign of his well-being.
‘I’m ready,’ he says, his eyes glassy and round.
‘I’ve got my gills on. The whole amphibian kit.’

The music begins. The sea waits by the door.
Both skin and scale are glowing. The neck he wears
Is just a little loose, he must tighten it.
The chin has worn away on his left side.
The music slops about inside his belly a while
Then creeps upward blowing through his ears
Into the room and hard against the walls.
Now he is swimming. He sees the music
Floating in the tank of the room. He must practice harder.
It is his food after all. He can feel its strands
Slip between his fingers, now silk, now knife.
It smells wholesome, of water, night and skin.

‘How does it sound?’ he asks her. ‘Like salt,’ she says,
‘Like salt and damascene.’ Her fancy talk, he thinks.

It’s not his skin, he knows that. The dinner jacket
Is of another era. Too many buttons on the waistcoat
Of the flesh. Too much blood in the fibre, none of it his.
But music too is skin. He wraps it about him.
He’s hardly there: half-fish-half-man is elsewhere,
In the bone beneath a skin that’s not his own.
Each living thing has its own element, he thinks,
And even this old skin belongs to someone.



George Szirtes

7.9.10

registo

sweet attention

para a catarina

o meu blog continua ter comentários, o que ele não tem é comentadores.