5 years ago
1.9.07
"vai e vem"
caraças que filme. a busca de uma imagem que me ajudasse a guardar a memória desta experiência de cinema, fez-me ir parar ao site do próprio filme. onde há fotos mas tão reduzidas que não são visíveis se postas no blog. há, no entanto, um conjunto divertido de críticas, nacionais e internacionais, que são legíveis via blog.
a mais vellha blogueira do mundo
"redacted"

31.8.07
beleza absoluta
era tarde na tarde. já não estava ninguém nos gabinetes próximos. só eu ainda resistia ao calor e ao cansaço. os olhos ardiam-me, semi-fechados por causa da luz estúpida do computador mas ainda assim não os tirava da página aberta em frente de mim. ouvi um passo leve aproximando-se e levantei os olhos, por cima do computador. à frente deles estava uma cara de pele muito preta na qual brilhava desmesuradamente o branco limpo de uns olhos enormes. se o meu cumprimento não tivesse sido correspondido eu teria duvidado da realidade da visão. não é habitual, pelo menos para mim, que a beleza, irrompa assim, num grau praticamente absoluto, nos locais onde trabalham os mortais.
não foi em vão que durante todo o dia seguinte esperei pelo fim da tarde. a rapariguinha voltou a aparecer leve e cerimoniosa como no dia anterior. ainda mais dolorosamente bonita. ' vou pedir-lhe se me deixa tirar-lhe uma fotografia' pensei. mas assim como apareceu ela voltou a desaparecer.
ao terceiro dia só nos cruzámos no corredor. pela farda que tinha vestida percebi que trabalhava na empresa de limpezas. e também, naturalmente, que se tratava de uma princesa vivendo na clandestinidade. foi assim que a levei comigo para férias.
ontem, de regresso ao trabalho, esperei pela sua chegada. depois de nos cumprimentarmos, cerimoniosamente como das vezes anteriores, não resisti: "já alguém lhe disse que você era muito, muito bonita?" ela parou de aspirar, levantou os olhos e hesitou, a sorrir meia-envergonhada, durante muito tempo: "sim...já". eu repeti: "é que não é muito vulgar a gente na nossa vida encontrar pessoas assim tão esplendorosamente bonitas..." e logo avancei: "importava-se que eu lhe tirasse uma fotografia?" não só não se importava como se ofereceu para amanhã (hoje) me trazer ela própria uma fotografia sua. iniciada uma conversa fácil, soube que a minha princesa tinha 20 anos, era nascida e crescida no reino de são tomé, e preparava-se para entrar num curso de psicologia, em lisboa. soube também que hoje é o último dia em que posso descansar o meu olhar cansado e ardido do fim do dia na doçura do seu sorriso cerimonioso e na escuridão brilhante da sua pele - porque em setembro começa as aulas e deixa de trabalhar nas limpezas. tirei-lhe a minha fotografia e fiquei a aguardar que hoje ela me traga a dela.
não foi em vão que durante todo o dia seguinte esperei pelo fim da tarde. a rapariguinha voltou a aparecer leve e cerimoniosa como no dia anterior. ainda mais dolorosamente bonita. ' vou pedir-lhe se me deixa tirar-lhe uma fotografia' pensei. mas assim como apareceu ela voltou a desaparecer.
ao terceiro dia só nos cruzámos no corredor. pela farda que tinha vestida percebi que trabalhava na empresa de limpezas. e também, naturalmente, que se tratava de uma princesa vivendo na clandestinidade. foi assim que a levei comigo para férias.
ontem, de regresso ao trabalho, esperei pela sua chegada. depois de nos cumprimentarmos, cerimoniosamente como das vezes anteriores, não resisti: "já alguém lhe disse que você era muito, muito bonita?" ela parou de aspirar, levantou os olhos e hesitou, a sorrir meia-envergonhada, durante muito tempo: "sim...já". eu repeti: "é que não é muito vulgar a gente na nossa vida encontrar pessoas assim tão esplendorosamente bonitas..." e logo avancei: "importava-se que eu lhe tirasse uma fotografia?" não só não se importava como se ofereceu para amanhã (hoje) me trazer ela própria uma fotografia sua. iniciada uma conversa fácil, soube que a minha princesa tinha 20 anos, era nascida e crescida no reino de são tomé, e preparava-se para entrar num curso de psicologia, em lisboa. soube também que hoje é o último dia em que posso descansar o meu olhar cansado e ardido do fim do dia na doçura do seu sorriso cerimonioso e na escuridão brilhante da sua pele - porque em setembro começa as aulas e deixa de trabalhar nas limpezas. tirei-lhe a minha fotografia e fiquei a aguardar que hoje ela me traga a dela.
30.8.07
sem título
face à inviabilidade da intimidade, optámos pragmaticamente por uma relação de extimidade.* com o tempo se verá se a nova relação 'funciona', isto é, se continua a ser uma 'relação'.
* neo-logismo no qual tropecei, não sei quando nem onde, cujo autor (desconhecido) só pode ser um génio
* neo-logismo no qual tropecei, não sei quando nem onde, cujo autor (desconhecido) só pode ser um génio
festival das almas

BBC News Player - Taiwan holds ghosts festival
memória restaurativa: a festa de despedida
os convidados regressaram na manhã seguinte, uns mais cedo, outros nas chamadas horas decentes. a maioria chegou receosa, cara séria e voz grave, mostrando perplexidade, senão mesmo medo, pelo (inevitável) ambiente festivo de qualquer casa aberta a uma manhã de sol e mar, ao vinho e à música. aberta à amizade. alguns poucos, que já vinham à espera do que iam encontrar, entraram natural e tranquilamente na sala e no quarto. aceitaram e ofereceram vinho, ouviram e puseram música, aproximaram-se e tocaram, com gestos diferentes, as duas almas residentes. entre os outros, houve os que permaneceram sempre defendidos da força das almas residentes, escondendo-se entre si; e houve os que aceitaram e se abriram e partilharam a sua alma. o que, ao reforçar a alma da casa, pode explicar o facto de, nove anos depois, a sua força continuar inalterada. mais para o fim da manhã, como previsto, apareceu o oficiante contratado a quem tinha sido pedido para dar o mote à reunião geral, antes da saída de casa. tarefa que ele cumpriu honestamente sem suspeitar que o segredo, isto é, a religação promovida pela sua presença, era da ordem do pensamento mágico tendo a ver apenas com o nome da sua paróquia. cá fora, no largo poeirento, quando o cortejo automóvel iniciou a sua marcha - era o dia 30 de agosto, passava do meio dia e o sol, a pique, fazia o mar faiscar - não havia um traço da feira que todos os dias o polui: todas as barracas de venda, quiosques de jornais, cafés de águas e gelados, estavam fechados, os produtos recolhidos, os alti-falantes desligados.
memória restaurativa: o velório mútuo
há nove anos, na casa com alma, janelas e portas abertas para o mar e para a noite, duas almas repousaram abraçadas: uma quente e pesada, a outra leve e fresca, mas ambas (co)movidas pela improvável conjugação do requiem de mozart com os gritos das gaivotas. a que bebia pequenos golos de vinho tinto ponderava na (i)rrealidade do mundo, a que via a outra beber, encarnava essa própria realidade.
memória reflexiva: a oração fúnebre
Pater noster
Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terrre
Qui est quelquefois si jolie
...
Toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-même d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
...
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Aves leur tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
...
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.
Notre Père qui êtes aux cieux
Restez-y
Et nous nous resterons sur la terrre
Qui est quelquefois si jolie
...
Toutes les merveilles du monde
Qui sont là
Simplement sur la terre
Offertes à tout le monde
Éparpillées
Émerveillées elles-même d'être de telles merveilles
Et qui n'osent se l'avouer
...
Avec les épouvantables malheurs du monde
Qui sont légion
Avec leurs légionnaires
Aves leur tortionnaires
Avec les maîtres de ce monde
Les maîtres avec leurs prêtres leurs traîtres et leurs reîtres
...
Avec la paille de la misère pourrissant dans l'acier des canons.
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