6 years ago
21.10.09
20.10.09
19.10.09
deixa que digam...
Gosto de sentir a minha lingua roçar
A lingua de Luis de Camoes
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de parodias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto da pessoa no Pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à mingua
"Minha pátria é minha lingua'
Fala Mangueira!
Fala Flor do Lacio sambódromo
Lusamerica latim em pó
O que quer
O que pode Esta lingua? (bis)
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas (bis)
Vamos na velo da dicção choo choo de Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E -- xeque-mate -- explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em a
De coisas como ra e ima, ima, ima ...
Nomes de nomes como Scarlet Moon de Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabe
e Maria da Fé e Arrigo Barnabé
Flor de Lacio sambódromo
Lusamerica latim em pó
O que quer
O que pode Esta Iingua? (bis)
Se você tem uma ideia incrível
E melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, o Recôncavo
Meu medo!
A lingua é minha pátria
E eu nao tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria (bis)
Poesia concreta e prosa caótica
Otica futura
Samba-rap, chic-left com banana (com sotaque português)
Será que ele está no Pão-de Açúcar?
Ta craude bro voce e tu lhe amo
Que queu te faço, nego? (com sotaque nordestino)
Bote ligeiro (com sotaque italiano)
Ma de brinquinho Ricardo! [...] (com sotaque portugues)
Otavinho, põe esta camisola pra dentro que assim mais parece um espantalho
I'd like to spend some time in Mozambique.
Aligato, aligato
Nos canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Livros, discos, videos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem ...
18.10.09
quando o telefone toca
- estou. mãe?
o incomensurável prazer de ouvir, ao g., esta forma de tratamento. que ele quase deixou cair em desuso depois de ter passado a ser pai. em prol do regular tratamento por "avó", no que sinto ser uma estratégia de distanciamento. talvez necessária - para reduzir o sentimento de filho? para aumentar a identidade da avó? - mas nem por isso menos perdulária...
o incomensurável prazer de ouvir, ao g., esta forma de tratamento. que ele quase deixou cair em desuso depois de ter passado a ser pai. em prol do regular tratamento por "avó", no que sinto ser uma estratégia de distanciamento. talvez necessária - para reduzir o sentimento de filho? para aumentar a identidade da avó? - mas nem por isso menos perdulária...
a propósito
do patriotismo (ie, daquilo que nos torna capazes de matar e de morrer por uma comunidade imaginada);
da intuição sobre o carácter histórico e cultural do estado-nação (antes da sua teorização por benedict anderson);
da intuição sobre o carácter histórico e cultural do estado-nação (antes da sua teorização por benedict anderson);
do sentimento (descoberto durante a experiência de vida no estrangeiro) de que a minha pátria verdadeira é a cozinha portuguesa, deixo esta cantiga, da carmen de miranda, que começa assim: Disseram que eu voltei americanizada/ Com o "burro" do dinheiro/ Que estou muito rica... e que acaba assim: Enquanto houver Brasil,*/ Nas horas das comidas/ Eu sou do camarão ensopadinho com xuxu.
* foi o b. que, com a sua delicada inteligência, trouxe hoje esta canção à colação, e ma apresentou cantarolando-a e chamando a minha atenção para o significado da frase que acentuei a bold.
17.10.09
a glória do vulgar
fiel à letra e ao espírito do seu nome, tem hoje o prazer de anunciar que, com a publicação do post anterior, se tornou no primeiro blog * cujos posts (isto é, as vulgaridades) têm notas de rodapé (destinadas a realçar-lhes a vulgaridade).**
* assim mesmo, "o primeiro blog"
** a glória estando, naturalmente, no excesso de vulgaridade assim obtido.
como irão os portugueses reagir
à notícia da bbc anunciando ser o uruguai o primeiro país * a fornecer um portátil a todas as crianças do ensino básico oficial?
tendo ido tão longe na sua mui justa e patriótica indignação contra uma pequena e desconhecida actriz brasileira de telenovelas, por que meios poderão agora defender a sua honra nacional desta vez posta em causa pela imensa e mundialmente famosa cadeia de televisão pública britânica?
eu, se fosse portuguesa, deixava de falar inglês e, se eles não pedissem desculpas formais, acabava com o inglês nas escolas.
note-se a mestria perversa do redactor que, deliberadamente, não escreve "o primeiro país do mundo" (para não ser lixado pela alta autoridade para a comunicação social "deles") nem "o primeiro país da américa latina" para nos lixar a "nós". resta acrescentar que a Verónica Psetizki. que lhes envia a notícia de montevideu, nunca refere ser o seu país o primeiro (é verdade que também não diz que e o segundo mas caraças está no uruguai não na colombia...)
16.10.09
o sexo dos anjos*
sou, por natureza, monodómica (adjectivo derivado da palavra "monodomia": do grego mónos, "um", mais domos, "casa"). não gosto, nem sei, ter duas casas ao mesmo tempo. nunca consigo gozar plenamente uma sem sentir que estou a abandonar a outra. no que a casas diz respeito confunde-me ouvir tanta a cantar os dois amores.
* com este post, que esteve para se chamar "o sexo das casas", encerro um pequeno e semi fortuito ciclo sobre o "sexo das coisas". a substituição de 'casas' por 'anjos', no título do post, visou acentuar a irrelevância, para não dizer mesmo a estupidez, do seu conteúdo.
cabeleireiro diferente
doce, a rapariga perguntou-me: a senhora quer que eu lhe traga alguma coisa para ler?
- acho que sim...
- e que revistas é que a senhora prefere? de viagens ou de ...
- não, o que eu costumo gostar é daquelas revistas de fofoquices e parvoíces...
seca, a rapariga respondeu-me: ah essas aqui não temos.
15.10.09
adivinha
quem poderá ser o autor deste poema de significado especialmente
reaccionário (portanto estúpido) e de prosódia particularmente bela
(portanto inteligente)?
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
reaccionário (portanto estúpido) e de prosódia particularmente bela
(portanto inteligente)?
não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
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