17.10.08

it's a wonderful world

enquanto "família" individada, recebo regularmente apetecíveis ofertas de dinheiro rápido e cómodo: nada tenho de fazer para além de escolher o montante, os benfeitores se encarregando de o depositar na minha conta, na hora ou no dia. o empréstimo é geralmente sem juros e amortizável a tão longo prazo que as prestações são, na opinião dos benfeitores, irrelevantes.

há uns bons anos, num ano mau, aceitei um empréstimo destes (300 euros do cartão jumbo) que ainda estou a pagar, de facto em prestações tão suaves que não dá bem para perceber que já devo ter pago 600 ou 700 euros por ele.

outro dia estava eu no sapateiro a comprar palmilhas quando toca o telemóvel. era um senhor do cartão jumbo a anunciar a boa nova de que me tinha sido alargado o plafond pelo que eu podia renegociar a minha dívida (sic) desde que pedisse mais outra maquia. inicialmente respondi desabridamente que não queria nada mas depois, lembrei-me da falta de liquidez com que a minha família se debate para pagar o irs e não desliguei o telefone.

no dia seguinte tinha os mil euros na conta. ou melhor tinha tido pois o banco se tinha pago do saldo negativo da conta deixando-a reduzida 2 euros e 60 cêntimos positivos.

uns dias depois recebo uma carta da ikea na qual, além do cartão da loja, vem uma carta a anunciar que, para além de todas as vantagens do dito cartão, eu poderia agora dispor imediatamente, na minha conta, de todo o valor do seu plafond. para isso bastava telefonar para determinado número. entre o incrédula e divertida, a família telefonou logto para o dito número. foi atendida por um gravador que lhe disse que se quisesse isto marcasse aquilo e se quisesse aquilo marcasse isto. a família marcou o que queria a mesma voz humana virtual pediu-lhe para "digitar" o número do cartão e o montante pretendido. o que ela fez assim provocando o aparecimento, na sua conta, de mais 600 euros.

não lhe chega ainda para pagar o irs cujo prazo acaba hoje mas ela tem a certeza que entre o momento em que escreve isto e a hora do fecho da repartição das finanças ainda vai receber muitas outras ofertas de dinheiro. entre as quais, no conforto do lar, vai poder escolher livremente a opção que melhor lhe convier para não ficar individada. junto do fisco naturalmente.

isto não é publicidade

16.10.08

obrigada octávio teixeira

abomino o modo como "eles" nos últimos anos me têm vindo progressivamente a transformar numa "família". é claro que a minha perene situação de endividamento também não ajuda...

foi neste contexto de prolongada resistência individual que hoje regozijei ao ouvir o octávio teixeira a falar em "bancos, pequenas e médias empresas, e cidadãos".

irónico serem os partidários do "colectivismo" a devolver-me a qualidade de "indivíduo" que me tem vindo a ser roubada pelos partidarios do "individualismo".

a luta continua.

13.10.08

toysare (not what they used to be)

não me lembro se já em criança detestava brinquedos. a verdade é que não os tinha - o império do brinquedo (ou da criança) ainda estava longe - para além de umas três ou quatro bonecas que os meus pais me tinham trazido de sevilha. livros também eram poucos e jogos nenhuns. em contrapartida, a grande gaveta da cómodoa urbana, na sala da casa de são joão, estava cheia de recortes de revistas da minha mãe: homens, mulheres, crianças com os quais tinha recreado famílias, escolas, hospitais, tudo o que a imaginação me permitia.
lembro-me de dar alguns brinquedos aos meus filhos: um combóio comprado em ayamonte a um, uma boneca com sardas a outra, e nada à terceira por lhe ter comprado muita coisa. a grande maioria eram brinquedos comprados em "ferros velhos" (feira da ladra e saraiva de carvalho sobretudo). no entanto e apenas no caso dos mais velhos, tendo em atenção os presentes recebidos de amigos e parentes, a gaveta de uma cómoda já não chegava. daí que eu já tivesse alguma experiência do que é o monte de sucata em que se transformam os brinquedos quando colocados à toa, muitos desmontados, partidos ou mutilados, nos quartos das crianças. mas em minha casa houve sempre um quintal, onde havia uma nespereira - da qual todos cairam pelo menos uma vez - um cão, um gato, muitas rãs, cadáveres de pássaros que caiam dos ninhos, além, naturalmente dos paus e pedras de todos os tamanhos e feitios.
com os meus netos a situação tornou-se, aos meus olhos, verdadeiramente obscena: o quintal desapareceu, ou não é usado como tal, e às crianças foram impingidos brinquedos coloridos, higiénicos, seguros e apropriados às idades (!). na categoria dos brinquedos passou a entrar o livro infantil (não é por acaso que eles são arrumados nos quartos delas). os brinquedos já não se amontoam num um monte de tralha, agora são agora usados para "decorar" os quartos das crianças onde invadem todo o espaço útil (e indispensável para se respirar/pensar): enchem as prateleiras que cobrem as paredes e os sacos verticais que pendem tecto; atravancam o chão e as mesas; e tudo destila o ar tóxico do dinheiro e do consumo e das marcas - toysareus, imaginarium, etc., nomes das lojas onde mais detesto entrar.
hoje é o dia de anos de um dos meus netos, por acaso o único que facilmente se confunde com o meu filho (o pai dele) na mesma idade. filho a quem comprei, no dia em que ele fez os 3 anos que este faz, no mercado de faro, um boneco de madeira destes com rodas que mexem à medida que a criança o puxa ou empurra; e que o entusiasmou de tal maneira que ele foi do mercado até casa a pedir-me para olhar o que se passava atrás de nós repetindo "olhi! olhi!", palavra que até hoje ficou a designar esse tipo de brinquedos.
há semanas que busco em vão um brinquedo que eu gostasse de lhe dar e que ele gostasse de receber. teria adorado dar-lhe um olhi-olhi mas os únicos que conheço são dos brinquedos de madeira a imitar antigos que também me irritam. nos poucos ferros velhos que resistem, de novo a rua do salitre e ainda a saraiva de carvalho, nada encontrei.
assim, vou agora partir em demanda de um brinquedo (!) no toysareus (!!!) que acabo de saber fica situado no colombo (!!!!!).

chat

eu comentei: "hoje estás virada para a conversa." ao que eu respondi: "não tenho a telefonia aberta..."
então eu confessei: "que bom! estava mesmo com saudades de falar contigo." o que me obrigou a desculpar-me dizendo: "também eu... mas sabes é a corrida em que tenho vivido." eu não disse mais nada sobre o assunto mas a conversa continuou animada.

9.10.08

JORNADA DE ACÇÃO

Pela regularização dos(as) indocumentados(as),
contra a onda xenófoba e contra o Pacto Sarkozy
domingo, 12 de Outubro, às 15h, no Martim Moniz

Cientes de que está criado um ambiente de perseguição aos imigrantes na Europa, e rejeitando as pressões racistas e xenófobas dos Governos de Sarkozy e Berlusconi, dezenas de organizações de imigrantes, de direitos humanos, anti-racistas, culturais, religiosas e sindicatos, convocaram para o próximo dia 12 de Outubro, domingo, pelas 15h, uma jornada de acção. A concentração está marcada para as 15h no Martim Moniz estando prevista uma Marcha até ao Terreiro do Paço, com a expressão da pluralidade de reivindicações deste vasto grupo de organizações, unidas por três lemas comuns: pela regularização de todos os indocumentados(as), contra a onda de xenofobia e contra o Pacto Sarkozy.

Nos dias 15 e 16 de Outubro, o Conselho Europeu reunirá os chefes de Estado e de governo dos 27 para ratificar o "PACTO EUROPEU sobre IMIGRAÇÃO e ASILO", aprovado no conselho de ministros realizado a 25 de Setembro. O Pacto proposto por Nicolas Sarkozy, no contexto da presidência francesa da União Europeia, visa definir as linhas gerais da UE nesta matéria e assenta em cinco pontos fundamentais: organizar a imigração legal, priorizando a adopção do "cartão azul", para recrutamento de mão-de-obra qualificada; facilitar os mecanismos e procedimentos de expulsão e estabelecer nesse sentido parcerias com países terceiros e de trânsito; concretizar uma política europeia de asilo; reforçar o controlo das fronteiras; proibir os processos de regularização colectiva.

Depois da aprovação da Directiva de Retorno, com o voto favorável do Governo português, estas medidas representam mais uma vergonha para a Europa. O tratamento securitário das migrações, a definição de critérios discriminatórios para acesso ao trabalho, o aprofundamento da criminalização da migração, da militarização e externalização das fronteiras através do FRONTEX e a perseguição dos(as) cerca de 8 milhões de indocumentados(as) que vivem e trabalham na Europa - a quem é oferecida a expulsão como única saída -, são medidas que visam consolidar uma Europa Fortaleza, da qual não podemos senão nos envergonhar.

Em Portugal, a recente onda de mediatização da criminalidade e as recentes declarações de responsáveis governamentais que trataram os(as) imigrantes como bodes expiatórios para o aumento da criminalidade, abrem espaço para as pressões xenófobas e racistas, e criam um ambiente propício para a desresponsabilização do Governo. Em causa está a necessidade de regularização de dezenas de milhares de imigrantes que defrontam sérias dificuldades em regularizar a sua situação.

São homens e mulheres que procuraram fugir à miséria, fome, insegurança, obrigados a abandonar os seus países como consequência do aquecimento global e outras mudanças climáticas, ou que muito simplesmente tentaram mudar de vida, mas a quem não foi reconhecido o direito a procurar melhores condições de vida. Tratam-se de pessoas que não encontraram outra opção senão o recurso à clandestinidade, muitas vezes vítimas de redes sem escrúpulos, e que se confrontam com uma lei que diz cinicamente que "cada caso é uma caso", fazendo da regra a excepção e recusando à generalidade dos(as) imigrantes o reconhecimento da sua dignidade humana. Destaque-se a situação dos imigrantes sem visto de entrada, a quem a lei recusa qualquer oportunidade de legalização.

Solidários(as) com a luta que se desenvolve na Europa e no mundo contra as politicas racistas e xenófobas, também por cá vamos lutar pela regularização de todos imigrantes, sem excepção, cada homem/mulher - um documento. É uma luta emergente contra as pretensões de expulsão dos(as) imigrantes, contra a vergonha de uma Itália que estabelece testes ADN como instrumento de perseguição dos ciganos(as), contra as rusgas selectivas, arbitrárias e estigmatizantes, contra a criminalização dos(as) imigrantes, contra a ofensiva das políticas securitárias e racistas, alimentadas pelo tratamento jornalístico distorcido feito por alguns meios de comunicação social. Cientes de que está criado um ambiente de perseguição aos imigrantes na Europa, e rejeitando as pressões racistas e xenófobas dos Governos de Sarkozy e Berlusconi, organizações de imigrantes, de direitos humanos, anti-racistas, culturais, religiosas e sindicatos, decidiram marcar para o próximo dia 12 de Outubro, domingo pelas 15h, no Martim Moniz, uma jornada de acção pela regularização dos indocumentados(as), contra a onda de xenofobia e contra o Pacto Sarkozy.

ORGANIZAÇÕES SIGNATÁRIAS: Acção Humanista Coop. e Des.; ACRP; ADECKO; AIPA – Ass. Imig. nos Açores; APODEC; Ass. Caboverdeana de Lisboa; Ass. Cubanos R.P.; Ass, Apoio ao Est.. Africano; Ass. Imigrantes Ucranianos – SOBOR; Ass. Juv. Laços de Rua; Ass. Lusofonia, Cult. e Cidadania; Ass. Moçambique Sempre; Ass. dos Naturais do Pelundo; Ass. dos Nepaleses; Ass. orginários Togoleses; Ass. R. da Guiné-Conacri; Ass. Olho Vivo; Ass. Recr. Melhoramentos de Talude; Ballet Pungu Andongo; CGTP-Intersindical; Casa do Brasil; Casa Grande do Brasil; Centro P. Arabe-Puular e Cultura Islâmica; Colect. Mumia Abu-Jamal; Comissão de Moradores do Bairro do Fim do Mundo; GAIA - Grupo de Acção e Intervenção Ambiental; Khapaz – Ass. de Jovens Afro-descendentes; Luta social; Núcleo do PT-Lisboa; Obra Católica Portuguesa de Migrações; Sindicato dos Professores da G.L.; Solidariedade Imigrante; SOS Racismo; UMAR.

8.10.08

"até negrejam" (memória de uma lacobringense de espiche)

- então não vês, é a diferença entre lagos e portimão...
- hmmm...
- olha que quando foi a inauguração do museu, no meio daquele imenso poder de gente que lá estava, tu não vias uma única cabeça loura!
eu bem queria explicar a "diferença" em termos nacionais - e ainda insisti na origem espanhola da família feo - mas o meu primo, que sobre o assunto percebe muito mais do que eu, manteve-se irredutível e nunca a deixou desviar do plano municipal.

lisboa

como havia de te ter encontrado se não fui à tua procura?

lagos: nicho

homenagem ao blog gaveta dos fundos

lagos: yin-yang

different perspectives

para lá, um abençoado ruído suspeito vindo dos dessous da viatura, tinha obrigado a condutora a "moderar" a velocidade - o que para ela significa qualquer coisa entre os 120 e os 140 quilómetros à hora.

para cá, o diagnóstico negativo do exame médico do márinho, o assistente do sr brito (cujo consultório fica paredes meias com o agora restaurado convento das freiras) permitiu à minha companheira de viagem e dona do carro (re)tomar o freio nos dentes e vir, à desfilada, do algarve até lisboa.

a certa altura, vá lá saber-se porquê, reduziu a velocidade e virou-se para mim sorrridente, sem reparar nos meus cabelos em pé nem na imensa palidez da minha cara: "olha-me bem para este carro, a 120 parece que vai a 60, até dá sono, não é?"