27.2.08

em que é que mudou de opinião? e porquê?

é a pergunta feita, neste ano da graça de 2008, pelo centro mundial das perguntas. as respostas (dadas por mais de uma centena dos mais relevantes cientistas em todas as áreas do conhecimeno) já podem ir sendo lidas on-line. no final do ano, sairão em livro, como nos anos anteriores.
de uma lista já longa, registo só as perguntas dos dois últimos anos:

2006 - "qual das suas ideias é perigosa?"
2007 -"a respeito de que é que está optimista?"

VAMP

gosto do nome
e gosto do trabalho
(bem como da visão
do mundo que o suporta)
realizado, no porto, pela

Viatura Móvel de Apoio à Prostituição.

o silêncio dos alunos

é-me difícil explicar a um amigo estrangeiro, mais ou menos interessado pela situação portuguesa, o facto de neste país serem os professores a fazer as manifestações de rua, os protestos e as greves.

26.2.08

contraste

du fu (712–770 ) e bai juyi (772–846) discordam sobre o que permanece e aquilo que desaparece. para o primeiro, é o natural que prevalece sobre o cultural enquanto que para o segundo é o cultural que tem a primazia sobre o natural.
杜甫 começa o seu curto poema 春望 com esta impessoal e lacónica sentença: "国破山河在"; 白居易 acaba a sua longa canção 长恨歌 com uma frase mais longa e pessoal "天 地久有时尽, 此恨绵绵无绝期".
admito que a acepção de 'cultura' não seja a mesma nos dois poemas chineses: aquilo que ameaça desaparecer, em du fu, é de ordem social (a sociedade politicamente organizada); já em bai juyi, o que ameaça permanecer, é da ordem individual (o sofrimento humanamente inescapável).
é claro que em du fu quem fala somos nós todos, o povo sem voz (os populares como nos costuma chamar a tv portuguesa) enquanto que em bai juyi a voz que fala é, nada mais nada menos, do que a da pessoa do imperador.
como não é por acaso que 杜甫 nos aparece ligado ao confucionismo e 白居易 à teoria e prática budistas.

para a helena e para o diogo

com os quais tive ontem o gosto de rever a história de amor entre o imperador xuanzong (685-762) e a bela yang guifei, como ela foi (extraordinariamente) contada pelo misoguchi, outras duas representações, também japonesas, do mesmo tema.

sozinha numa pintura de hosoda eishi (1756-1829)
















com luo gongyuan, numa nuvem,
gravura de totoya hokkei (1780-1859)
aqui, o encontro no outro mundo não se passa com o imperador - como no filme (no qual ele acontece sem que o "vejamos") - mas com um seu enviado, luo gongyuan. reza a lenda que xuanzong , inconsolável pela morte da sua preciosa concubina (贵妃
guifei), encarregou o mestre daoista de entrar em contacto com ela, uma missão que este não terá deixado de cumprir.
(quem estiver interessado na vida e na lenda em torno deste intermediário entre o mundo dos com forma e o mundo dos sem forma, pode começar por ler o estudo que franciscus verellen publicou, "luo gongyuan: culte et légende d'un saint taoïste", no Journal Asiatique, 275, 1987: 283-332)

em março continuaremos a conversa que ontem encetámos sobre a noção de mandato do céu, ou melhor, sobre as questões que só (?) um cineasta japonês poderia levantar em torno do tianming (), um conceito político central na história da china sempre muito mal visto no japão. a verdade é que quanto mais penso no filme, mais acho que esse é o seu tema central, pese embora o peso que nele tem a figura de yang guifei, presente até no título.

25.2.08

programa de vida

faz-me confusão ir buscar uma neta à escola e ela vir comigo sem me perguntar para onde vamos ou como vamos. num entrega total. e com uma alegria absoluta. se nos enfiamos no metropolitano é um divertimento: porque os bilhetes não funcionam e, como na horrível cantiga do senhor barqueiro, ora consigo entrar com uma mas tenho de deixar de fora a outra, ora consigo sair com a outra mas tenho de deixar de dentro a uma; porque depois em vão procurarmos as escadas de uma cor qualquer, encontramos uma amiga, cujo nome é alegria (e que apesar de ter um ar bastante perdido sabe muito bem para onde vai) e nos conduz, através do labirinto até à saída para a amadora-este; porque à força de imaginarmos o que vai dentro dos sacos dos nossos companheiros de viagem, nos esquecemos de uma das nossas próprias mochilas. se tomamos um táxi é uma risota: porque o motorista foi muito simpático ao esperar por nós, na rua das pretas, e temos de lhe agradecer; porque num sinal vermelho, ouvimos o motorista a cumprimentar, numa língua estranha, um outro motorista de táxi: oh avó que língua é que o senhor está a falar? perguntou baixinho a mais nova ao que mais velha logo respondeu, mais alto, que era francês - pelo que, entre cantigas cantadas em coro e palavras soltas ditas a solo, a eufórica viagem terminou em frente à faculdade de letras com sucessivos au revoir distos de dentro e de fora do carro pela mimas, a mais velha e mais expedita. se vamos a pé, tudo o que se nos depara pela frente, pelo lado ou mesmo por trás (as cianças têm olhos de moscas) é objecto de curiosidade e de desejo - o objectivo da viagem não sendo chegar, pode-se efectivamente viajar.
outro dia era dia de coro. era portanto suposto subir a avenida e descer ao metro, como fazemos todas as semanas. mas nós, sem eu lhe dizer nada, de mãos dadas, começámos a descer a avenida e a subir ao chiado. sem que nunca fosse preciso puxar ou explicar. no rossio, a jucas quis tirar fotografias dentro de uma das mais ou menos estúpidas letras do love, no chiado parar a observar o fogo dos saltimbancos e no paris em lisboa oferecer um presente com o dinheiro dela. tudo isto fizemos sem que uma única vez ela me tivesse interrogado sobre as razões da alteração do programa ou sobre os objectivos do programa de substituição. para estas minhas netas a vida é o próprio programa.

da série 'blow up'


aqui não há lobuji pois não?
(há. mas por ora ainda sou capaz de te proteger deles minha doce grande filha pequena)

museu da cidade


oh avó posso correr aqui só um bocadinho?
(então não podes meu amor. corre tudo o que te apetecer...)

opus dei


nova tentativa, novamente
periclitante, de arrumar a
biblioteca com a mais nova
versão do "book collector"

coro


ensaio com lucas (aqui invisível porque ainda
ao meu colo a tirar esta e outras fotografias)