30.4.08

night session

ye che (夜车 ) isto é, "comboio da noite", é o segundo filme de diao yi'nan (刁亦男), um realizador chinês que diz ser mais cinéfilo do que cineasta (ver entrevista aqui). ele esteve hoje na apresentação do filme, no indie, onde volta a estar na próxima sexta-feira

(tongxuemen nimen yinggai qu kankan, tingting).
como pessoa parece ter a reserva e a modéstia do jia zhangke e como cineasta parece fazer parte da mesma "linhagem" , ou, como dizem os chineses, da mesma geração de cineastas (a 6ª).
se, como tendo a acreditar, os nomes dos filmes fazem parte integrante deles, o título deste é outro indício de que o filme não é um acto de militância política contra a pena de morte (como alguns o quiseram catalogar) mas uma história sobre a importância das relações humanas, sobretudo da relação homem-mulher: é no comboio da noite que a protagonista se desloca repetidamente à cidade onde tenta encontrar um homem com quem possa encetar uma nova relação amorosa. ao dizer isto não estou a negar a importância, para a história do filme, de o trabalho (a vida?) da protagonista consistir na execução de mulheres condenadas à morte; nem a importância, para a história da humanidade, de o bom cinema, mesmo de ficção, ser sempre documental. ora, e se como o mestre nos ensinou, a documentação da história serve para louvar ou para censurar, não admira que, tal como os príncipes do seu tempo tremeram quando ele escreveu o chunqiu, as autoridades do nosso tempo se assustem com os juízos morais explícitos ou implícitos na escrita do cinema. diao yi'nan contou que o filme ainda não foi apresentado à comissão de censura pelo que ainda não sabe se ele vai poder ser visto na china ou não. no entanto, acrescentou, é opinião dos seus amigos que viram o filme, que ele vai fazer tremer os congéneres actuais dos príncipes do tempo de confúcio.

26.4.08

um filme, três retratos

jia zhangke, que muitas vezes parece fazer documentário quando está a fazer ficção, parece agora, neste documentário, estar a fazer ficção.
o filme é um tríptico sobre roupa: dos dois lados estão pessoas que a produzem e usam, no meio, uma pessoa que a desenha.
o carácter colectivo e anónimo dos operários contrasta com e salienta a individualidade-nome de ma ke, a desenhadora de moda. a falta de desenho da roupa produzida industrialmene em série acentua a falta de uso da roupa desenhada e produzida à mão. à ausência do produto final do trabalho dos operários textêis corresponde à ausência do trabalho anterior ao produto final da designer de moda.
o facto de o filme ter por título o nome de uma marca de roupa (wu yong), assim como a colocação do retrato da sua criadora no centro do tríptico, valoriza decerto o seu trabalho que aparece como uma forma de resistência sócio-cultural e de expressão individual. mas não se pode esquecer que o significado literal do título, ‘sem utilidade’, também descreve a vida das pessoas que enquadram a vida da designer; e que, ao contrário desta, não conseguem fugir ao trabalho alienante com que são forçadas a ganhar a vida. jia zhangke não usa o trabalho fabril dos operários têxteis como pano de fundo para fazer brilhar a actividade artística de ma ke na produção dos seus modelos. ele usa esses modelos e o discurso sobre eles, por parte da sua criadora, para mostrar com maior nitidez os contornos do trabalho e da vida dos que, no mesmo momento da história mundial, estão a produzir grande parte da roupa que todos nós, chineses ou não, usamos no nosso dia a dia.

wuyong

o filme useless, de jia zhangke, visto no indie deste ano, deu-me a conhecer o trabalho e a pessoa da designer chinesa ma ke.

da sua marca wuyong (nome que significa 'inútil' e é, de resto, o nome do filme) estão aqui algumas fantásticas fotografias.

20.4.08

Lux aeterna

assim (como) assim muitos parabéns!

17.4.08

14.4.08

hospital da cuf

por detrás do balcão onde se inscrevem os doentes das urgências, uma recepcionista pede explicações a outra sobre o que na altura parecia ser a perda da ficha do senhor sentado à minha frente:
- mas tu disseste que o senhor é embaixador e que está com dores no peito?
- eu disse...

o valor do trabalho

- como é que consegue conciliar as suas actividades religiosas com
este trabalho aqui no gabinete? a trabalhar 10 ou 12 por dia não lhe
resta muito tempo para as suas orações...
- mas é que o trabalho é uma forma de oração.

mulher de césar

não sou uma folha seca (apesar de parecer).