25.2.08

programa de vida

faz-me confusão ir buscar uma neta à escola e ela vir comigo sem me perguntar para onde vamos ou como vamos. num entrega total. e com uma alegria absoluta. se nos enfiamos no metropolitano é um divertimento: porque os bilhetes não funcionam e, como na horrível cantiga do senhor barqueiro, ora consigo entrar com uma mas tenho de deixar de fora a outra, ora consigo sair com a outra mas tenho de deixar de dentro a uma; porque depois em vão procurarmos as escadas de uma cor qualquer, encontramos uma amiga, cujo nome é alegria (e que apesar de ter um ar bastante perdido sabe muito bem para onde vai) e nos conduz, através do labirinto até à saída para a amadora-este; porque à força de imaginarmos o que vai dentro dos sacos dos nossos companheiros de viagem, nos esquecemos de uma das nossas próprias mochilas. se tomamos um táxi é uma risota: porque o motorista foi muito simpático ao esperar por nós, na rua das pretas, e temos de lhe agradecer; porque num sinal vermelho, ouvimos o motorista a cumprimentar, numa língua estranha, um outro motorista de táxi: oh avó que língua é que o senhor está a falar? perguntou baixinho a mais nova ao que mais velha logo respondeu, mais alto, que era francês - pelo que, entre cantigas cantadas em coro e palavras soltas ditas a solo, a eufórica viagem terminou em frente à faculdade de letras com sucessivos au revoir distos de dentro e de fora do carro pela mimas, a mais velha e mais expedita. se vamos a pé, tudo o que se nos depara pela frente, pelo lado ou mesmo por trás (as cianças têm olhos de moscas) é objecto de curiosidade e de desejo - o objectivo da viagem não sendo chegar, pode-se efectivamente viajar.
outro dia era dia de coro. era portanto suposto subir a avenida e descer ao metro, como fazemos todas as semanas. mas nós, sem eu lhe dizer nada, de mãos dadas, começámos a descer a avenida e a subir ao chiado. sem que nunca fosse preciso puxar ou explicar. no rossio, a jucas quis tirar fotografias dentro de uma das mais ou menos estúpidas letras do love, no chiado parar a observar o fogo dos saltimbancos e no paris em lisboa oferecer um presente com o dinheiro dela. tudo isto fizemos sem que uma única vez ela me tivesse interrogado sobre as razões da alteração do programa ou sobre os objectivos do programa de substituição. para estas minhas netas a vida é o próprio programa.

da série 'blow up'


aqui não há lobuji pois não?
(há. mas por ora ainda sou capaz de te proteger deles minha doce grande filha pequena)

museu da cidade


oh avó posso correr aqui só um bocadinho?
(então não podes meu amor. corre tudo o que te apetecer...)

opus dei


nova tentativa, novamente
periclitante, de arrumar a
biblioteca com a mais nova
versão do "book collector"

coro


ensaio com lucas (aqui invisível porque ainda
ao meu colo a tirar esta e outras fotografias)

23.2.08

The Flight of the Valkyries

como não sentir a falta do meu jovem vizinho?

22.2.08

a terna e antiga sabedoria da alex e do miguel

conheço muitos e desvairados processos por que os pais ou avós ou padrinhos, ou seja lá quem for que nas diferentes sociedades deste nosso vasto mundo, tem o importante papel de nomear os recém-nascidos. estava portanto convencida que, nesta matéria, pouco ou nada de novo haveria debaixo do sol que me pudesse surpreender. e no entanto, eis que a verdadeira surpresa surge aqui mesmo ao meu lado - fisica, psicológica, familiar e culturalmente. trata-se de um jovem casal que, quando ficou à espera da sua (primeira) filha, seleccionou três nomes do seu agrado que depois colocou à votação da família e amigos. o processo eleitoral, que decorreu a par da gravidez, foi encerrado no dia do parto e os resultados foram publicados pouco depois. para garantir a lisura do escrutínio, os votantes, ao serem informados do nome escolhido ('sofia') receberam também, numa folha de excel, os resultado, discriminados por votante e por nome votado. talvez não seja por acaso (o povo tem sempre razão...) o nome da sofia é o símbolo perfeito da terna sabedoria subjacente a este novo processo de nomeação comunitária.

os casos clínicos de sacks como "exercises in love and respect"

o oliver sacks foi-me recentemente "apresentado" a partir da história do pintor que, ao perder (um)a visão ( 'normal' com cores), ganhou outra ('anormal' a preto e branco), o que não o impediu de pintar mas o levou a fazê-la noutra direcção (an anthropologist in mars). como quase sempre acontece, passei a encontrá-lo a toda a hora. na semana passada, numa consulta de oftalmologista, ainda sobre o cérebro e os olhos, uma parte dele, claro está. esta semana numa revisão, por colin mcginn, da sua obra musicophilia: tales of music and the brain. aqui, como o título indica, os casos clínicos apresentados são de pessoas cujo cérebro musical se caracteriza ou pelo décifit ou ou pelo superavit. mas, o que agora me interessa registar, é o modo como mcginn vê sacks a ver:
1. a pessoa: (...) irreducibly a center of thought, feeling, and will, yet (...) also a puppet of the circuits and nuclei that make up the brain;
2. o cérebro: (...) our ineluctable fate, but the person is more than a mere syncopation of brain regions;
3. o princípio da realidade: you have to live with the brain you've got, making the best of its contingent strengths and weaknesses, not the brain you might ideally have preferred:
4. o princípio do prazer: the human mind can take many forms (...) and some can indeed appear bizarre and threatening, but there is always a self that underlies these myriad forms—and that self can sometimes enjoy virtues and powers not found in the normal
5. a inescapabilidade do eu (e do outro): in the midst of tremendous neurological upset there is still a human self throbbing within (...) the amnesiac or the catatonic is still a center of consciousness, capable of feeling and thought (... ) there is always an "I" there, someone to whom things matter; so long as there is consciousness at all, there is a subject of that consciousness (..) even if you can't tell your wife from a hat [título de uma obra de sacks] there is still a you that must deal with this disability.

este post acabou por se transformar numa homenagem ao zé maria. que tão bem está a aproveitar, para usar a expressão de mcginn, a tremenda perturbação por que passou o seu cérebro, para reforçar e refinar o que, até ao seu desastre, não seria mais do que a normal capacidade e gosto de viver dos humanos jovens. estou a pensar num comentário, que lhe "ouvi" por interposta pessoa (e meio de comunicação pois o zé maria ainda só fala por escrito e estava a falar com o pai dele), sobre os interlocutores (ironicamente um 'normal' e outro'anormal') de uma conversa travada na sua presença: "estes não gostam de viver! têm medo..."

21.2.08

a esperada lei

da mobilidade na função pública vai legalizar-me a imobilidade na função privada.

20.2.08

sofisticação absoluta



ver aqui

mais exemplos, todos
igualmente fabulosos,
do modo elaboradíssimo
como numa cultura cujo
território se situa algures
entre a etiópia, o quénia
e o sudão, as pessoas se
arranjam para os eventos
de maior cerimónia