2.6.10

alba, de E. de Andrade

como se não houvera
bosque mais secreto,


como se as nascentes
fossem só ardor,


como se o teu corpo
fora a vida toda
,

o desejo hesita
em ser espada ou flor.



este belíssimo poema (que reli no FB de um amigo) bate-me (leia-se, dói-me); é com ele que me debato (leia-se, me inquieto) num debate à volta de uma pergunta (cuja natureza pateta, mas também patética, dificulta o aparecimento de uma resposta na alba): não é este poema um exemplo de texto que só uma pessoa do sexo masculino (poderia) escrever(ia)?

11 comments:

  1. Essa poesia é de cortar a respiração e, concordo consigo, só um homem a poderia ter escrito
    pouco ou nada anónima

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  2. Se o próprio desejo hesita em ser espada ou flor ele é só ardor mas não me parece que tenha sexo, é dos dois

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  3. que vg me perdoe mas concordo mais com sagnipas!

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  4. apesar de a vg nada ter comentado até agora acho que ela te perdoa...

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  5. naturalmente que o desejo é dos dois, como acentua a sagnipas e a tinoni concorda, mas admitem as minhas amigas, que por acaso são mulheres, que uma criatura do seu género, conceba, imagine, represente o seu desejo como algo pontiagudo e laminado, como um instrumento de perfuração, de ferpuração, como uma "espada"?

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  6. sou puro espírito não tenho desejos... I survive, that's all! ;)

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  7. I'm tired so tired... (será uma canção, uma 'deixa', pergunto-me)

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  8. E não nos sentimos tantas vezes a flor e desejamos também tantas vezes ter a "espada"?

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  9. Mas não a temos objectivamente.
    E eu, pela parte que me toca (que raio de expressão neste caso) não me lembro de alguma vez ter vivido/imaginado o meu desejo como espada isto e como desejo de penetração/agressão. Quer isto dizer que tenho o complexo de castracao resolvido ou que estou tão atras que ainda nem dele tomei consciência? E capaz de não querer dizer nada senão aquilo que diz.
    Pouco anônima

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  10. belíssimo poema indeed. quanto ao debate em que te bates, ousaria opinar diferente: homem ou mulher, um/a autor/a pode ser/usar/escrever espada e/ou flor conforme o desejo lhe/s calhar, sem que isso lhe/s defina o género. em Mar de Setembro, que contém o poema e reli agora, e. de andrade (homem? mulher?) vive apaixonado um ardente amor de verão, que evoca configurando-se, e ao amante, naquelas duas palavras, sim, mas ainda em muitas outras nele mais habituais - céu lábios areias ondas água brisa luz lume orvalho pedra ramo barco. 'espada' e 'punhal', que vem num outro poema, marcam-lhe a hombridade? duvido. diria mesmo que e. de andrade não os toma nesse visualmente óbvio (de mais) sentido literal, pois seriam, nessa acepção, vocábulos obscenos na sua pena. a 'violência' sexual, dele como de outr@s autores de qualquer sexo, não tem de ser, não é, violência física, mas sim violência de afectos, de paixão extremada, excessiva, que traduzem em palavras agressivas, 'derangeantes', mesmo letais. (amor-morte-ressurreição é violência pura, 'transcendental'). enfim, talvez, digo eu brrr

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  11. talvez, talvez, mas, mas,

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