25.3.10

o doente disse, sem pausa ou entoação,

que o verde do sofá onde estava sentado, na sala-consultório, lhe lembrava as grandes pradarias para cuja planura lhe apetecia fugir embora também sonhasse com a verticalidade azul das montanhas brumosas; que do mar, o que desejava era a imobilidade, e das árvores, o marulhar ao vento; que queria pôr a nu o seu corpo velho e cansado para primeiro o deixar derreter ao sol e depois devolver-lhe a forma nas águas geladas do rio; que a humana razão era o seu único vício e o  pecado original a perda da virtude das plantas e dos animais; que se sabia encarcerado numa prisão sem guardas, nem muros, nem grades, cujo portão permanecia sempre escancarado diante de si.

10 comments:

  1. (não sou 'anonymous' nada, sou o brrr de volta ao gv, só que, nético nulo que sou, perdi o brrr que na net costumo e quero continuar a ser).
    a 'nossa' clara é menos complicada - por isso se chama clara - do que o teu doente. saudosa, parece, não sei de quê… foi-se-me para a marquise um dia destes - dia 11 para ser preciso, embora preciso não seja que o diga - e pôs-se a rimar, feita parva, do 5º andar para baixo:

    o barulho que me chega
    imagino que é o mar.
    onda a onda que se entrega
    uma à outra a marulhar
    eterna e terna a arrulhar
    finda na praia a praiar.
    fecho os olhos é o mar.

    abro os olhos a luz cega
    rugem carros a rolar
    na infernal cegarrega
    de correr ultrapassar
    zumbir zunir buzinar
    poluir de raiva o ar.
    fecho os olhos quero o mar.

    pela cópia, brrr

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  2. um texto que ultrapassa o vulgar numa sentido glorioso

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  3. reponha-se, p.f., a veracidade factual,temporal e espacial do meu 'très beau'que era dedicado ao post da gv e não à, aliás muito bem esgalhada, poesia de brrr.
    o que 'alfacinha' escreve a que se referirá, eis a questão.

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  4. a gv agradece a alfacinha e a tinoni pelas palavras e ao brrr (desde ontem com foto no perfil) pela poesia.

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  5. Não sei se é bom ou beau, só sei que aprecio este blogue, diferente de todos os outros do meu conhecimento, agarrada pelo seu fio narrativo e até pelas sombras de personagens construídas nas e pelas várias postas. Não está o recém aparecido doente a delirar o mundo à la Deleuze? Quem não tem saudades da avó algarvia reinando nu, trono de lona? Pela minha parte leio o "glória do vulgar" como um belo blogance no qual não falta o suspense.
    O br que tanta gosta de rimar há-de me desculpar a minha desajeitada "rima".
    Marta T.

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  6. onde está foto de brrr que não vejo? "asfixia democrática"? ;-)

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  7. Discordo da Marta. Este doente remete-me para o post-citação de Marx. Não tanto para o de Deleuze.

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  8. tinoni: acho que só aparece quando ele comentar

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  9. …e ele, brrr, comenta para aparecer… e já agora também para pedir às queridas que não o 'liksem', a ele e a seus/suas versejador@s de serviço, chamando poesia às rimalhices que a generosidade d@ gv permite aqui publicar. poesia é camões e pessoa, antero e junqueiro, sena e o'neil, para citar os primeiros nomes que lhe/me ocorrem. as versalhadas por este pobre brrr transcritas não passam de (fúteis?) jogos de ideias e palavras esforçadamente ri(t)madas, que merecerão, quando muito e se possível, um sorriso complacente das leitoras, seguido de um inevitável brrr de encolher de ombros final. brrr. (afinal não apareço nada com certeza pois, brrr burro que sou, só consigo ser aceite como 'anonymous' uma vez mais).

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