1.11.10

cerâmica

voltei a fazer um bule, coisa que fiz muitos há muitos anos. é bom retomar as velhas rotinas... nós vamos mudando, os bules não. *

* mini homenagem a um amigo

31.10.10

o vento de lisboa

ao atravessar a infante santo, debaixo do vento e da chuva, voa-me o chapéu da cabeça. em vez de, utilitariamente, lhe seguir o percurso com vista à sua possível recuperação, os meus olhos dirigem-se, imediata e automaticamente, para o grupo de pessoas paradas mais à frente, à porta de um café, na aflição de descobrir se se estão a rir de mim.

só depois procuro com os olhos o chapéu mas, vendo-o já a chegar ao passeio do outro lado da rua, decido, por medo do ridículo que seria correr atrás dele, continuar o meu caminho como se nada se tivesse passado, como se o chapéu não fosse meu. apenas para realizar, quase em simultâneo, que mais ridículo do que correr atrás de um chapéu, que nos voa da cabeça, há-de ser a imagem de alguém, a quem, depois de um chapéu lhe voar da cabeça, continua o seu imperturbável caminho sem dar o mais ligeiro sinal externo de que o chapéu lhe voou da cabeça. 

é nesse momento que os olhos dos jovens soldados e soldadas, que entretanto ficaram para trás, me queimam as costas sem piedade. mas resisto e não viro a cabeça na sua direcção. 

a aparecida

atrasada na elaboração dos sonhos, aproveito este dia do senhor para pensar as senhoras, de todos os tamanhos, feitios, origens e disposições, com as quais tenho convivido, malgré moi mas for my sake, todas as  noites desde que, há mais de uma semana a esta parte, encontrei essa outra parte, numa viagem, não sei se de ida e volta, manuseada por mapas estranhamente familiares, entre a vigília e o sono, de um progressivo levantamento, exacerbado pelo fechamento, até ao prolongado descimento a caminho de uma geografia próxima da anestesia.
estas as palavras ditadas pela senhora de corpo reduzido e cara grande, que, tal como as companheiras, entrava de gatas na sala cumprimentando me com voz triste. todas minhas conhecidas, embora umas mais do que as outras, todas reduzidas pela doença, a maioria movimentando-se a quatro, muito rentes ao chão, de si espalhando em redor um grande odor de sofrimento.

tou navegando mais frouxo

ainda
a
pensar
em
laerte
vi
esta
entre
vista

que pessoa TÃO engraçada!

28.10.10

para a júlia h.

- oh sr. arménio então sempre arranjou aqueles fechos a que os senhores chamam "trancas malucas"?
- não, eles acho que já não fazem essas "tranquetas doidas". também não sei porquê...

dia de sobra

ao fim da tarde passeio fresco a pé até à mini merceeria.
ainda há dois pães. agarro num, acho-o duro e volto a colocá-lo na cesta. pego no outro e não o acho melhor:
- é de hoje? está tão duro.
- é... nós só temos pão do dia.
- ai é ... e então o que é que fazem às sobras? devolvem?
- não podemos devolver... o que sobra damos ós pretos - explicou a rapariga fazendo um gesto largo que apontava para sul - ou é prás galinhas...

27.10.10

ítaca: a proposta de Cavafi

As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.

Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

17.10.10

rememorando

pouco ou nada ficou. apenas vejo a senhora dona maria amélia e, naturalmente, a prima do colar de pérolas.
nunca mais te venho visitar. vem uma pessoa de tão longe, para xabregas, ou chelas, passa viaduto e ponte por baixo e por cima, engana-se nas rotundas e depois nem te dignas a abrir os olhos ou a apertar a mão aí encerrada nesse mundinho donde não sais nem deixas entrar.
tocam os instrumentos à tua volta, a única telefonia por perto, e reassinas como se fosse de madrugada. apitam as campainhas dos teus companheiros à roda e mexes um pé. digo- te que estavas muito mais bonita que a estúpida da h. no casamento da r., que eras a maIs bonita no casamento da c. e chamo vaidosa, além de alluneuse.
falo-te no l. e no passeio nocturno de barco (sem saber que alguém iria falar no mesmo assunto e em público mas em segredo - abençoada) de que só eu já tenho a chave (afinal não era verdade) e nem mesmo isso te convence a sair para fora não da cama mas do coma em que te foste meter.
será este um capricho final? não sei como a c. neta ainda não carregou contigo para os comatosos anónimos. talvez no acanhado apartamento sub-urbano as rezas e as reuniões te projectassem para fora da irritação.
igualmente me lembro de me teres gozado por o meu amigo ser de muitos salalecos mas nem oito nem oitenta, uma ausência completa de salamaleque também não é próprio de uma senhora.

16.10.10

upgrade

- não, não é um falhado é apenas (um) infeliz! disse ela.
apesar de ser evidente o crescimento da ideia, tida e mantida pela psicologia pop, de que cada um de nós consegue construir a sua própria felicidade, ainda é possível, a muitos dos nossos infelizes, viverem em paz com a sua infelicidade, sem terem de se sentir responsáveis por ela.
a natural constatação de que não se tem, ou não se teve, sorte na vida - nos filhos que se gerou, nos empregos que se obteve, nos casamentos que se fizeram - ainda permite a qualquer infeliz gozar a sua infelicidade sem ter de pagar, por ela, a imensa e horrível dívida da culpa.
talvez não por muito mais tempo, though. já que a figura do falhado tende a substituir a figura do infeliz. e, subjacente à figura do falhado está a ideia de que cada qual é responsável, o único responsável, pelo seu próprio sucesso na vida -  seja lá isso o que for e seja isso aferido a que nível da vida o for (a profissão, a família, a sociedade). ao domínio, impiedoso, de essa tão almejada "agência" ninguém pode escapar: um falhado, qualquer falhado, falha sempre por falha própria, não há como dar-lhe a volta. o azar, a doença, o destino, até o mero acaso, podem justificar a infelicidade do infeliz mas nenhumas dessas atenuantes pode remir, aos olhos do falhado, o seu próprio falhanço.*
assusta-me, confesso, a facilidade com que, hoje em dia, os que dantes eram tidos e se (man)tinham a si próprios como uns meros infelizes, são agora tomados, e se tomam a eles próprios, como uns verdadeiros  falhados.

* embora e talvez, paradoxalmente, a sorte, ao contrário do azar, seja mais facilmente usada para justificar o sucesso do que a felicidade.