28.10.10

para a júlia h.

- oh sr. arménio então sempre arranjou aqueles fechos a que os senhores chamam "trancas malucas"?
- não, eles acho que já não fazem essas "tranquetas doidas". também não sei porquê...

dia de sobra

ao fim da tarde passeio fresco a pé até à mini merceeria.
ainda há dois pães. agarro num, acho-o duro e volto a colocá-lo na cesta. pego no outro e não o acho melhor:
- é de hoje? está tão duro.
- é... nós só temos pão do dia.
- ai é ... e então o que é que fazem às sobras? devolvem?
- não podemos devolver... o que sobra damos ós pretos - explicou a rapariga fazendo um gesto largo que apontava para sul - ou é prás galinhas...

27.10.10

ítaca: a proposta de Cavafi

As you set out for Ithaka
hope the voyage is a long one,
full of adventure, full of discovery.
Laistrygonians and Cyclops,
angry Poseidon—don’t be afraid of them:
you’ll never find things like that on your way
as long as you keep your thoughts raised high,
as long as a rare excitement
stirs your spirit and your body.
Laistrygonians and Cyclops,
wild Poseidon—you won’t encounter them
unless you bring them along inside your soul,
unless your soul sets them up in front of you.

Hope the voyage is a long one.
May there be many a summer morning when,
with what pleasure, what joy,
you come into harbors seen for the first time;
may you stop at Phoenician trading stations
to buy fine things,
mother of pearl and coral, amber and ebony,
sensual perfume of every kind—
as many sensual perfumes as you can;
and may you visit many Egyptian cities
to gather stores of knowledge from their scholars.

Keep Ithaka always in your mind.
Arriving there is what you are destined for.
But do not hurry the journey at all.
Better if it lasts for years,
so you are old by the time you reach the island,
wealthy with all you have gained on the way,
not expecting Ithaka to make you rich.

Ithaka gave you the marvelous journey.
Without her you would not have set out.
She has nothing left to give you now.

And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
Wise as you will have become, so full of experience,
you will have understood by then what these Ithakas mean.

17.10.10

rememorando

pouco ou nada ficou. apenas vejo a senhora dona maria amélia e, naturalmente, a prima do colar de pérolas.
nunca mais te venho visitar. vem uma pessoa de tão longe, para xabregas, ou chelas, passa viaduto e ponte por baixo e por cima, engana-se nas rotundas e depois nem te dignas a abrir os olhos ou a apertar a mão aí encerrada nesse mundinho donde não sais nem deixas entrar.
tocam os instrumentos à tua volta, a única telefonia por perto, e reassinas como se fosse de madrugada. apitam as campainhas dos teus companheiros à roda e mexes um pé. digo- te que estavas muito mais bonita que a estúpida da h. no casamento da r., que eras a maIs bonita no casamento da c. e chamo vaidosa, além de alluneuse.
falo-te no l. e no passeio nocturno de barco (sem saber que alguém iria falar no mesmo assunto e em público mas em segredo - abençoada) de que só eu já tenho a chave (afinal não era verdade) e nem mesmo isso te convence a sair para fora não da cama mas do coma em que te foste meter.
será este um capricho final? não sei como a c. neta ainda não carregou contigo para os comatosos anónimos. talvez no acanhado apartamento sub-urbano as rezas e as reuniões te projectassem para fora da irritação.
igualmente me lembro de me teres gozado por o meu amigo ser de muitos salalecos mas nem oito nem oitenta, uma ausência completa de salamaleque também não é próprio de uma senhora.

16.10.10

upgrade

- não, não é um falhado é apenas (um) infeliz! disse ela.
apesar de ser evidente o crescimento da ideia, tida e mantida pela psicologia pop, de que cada um de nós consegue construir a sua própria felicidade, ainda é possível, a muitos dos nossos infelizes, viverem em paz com a sua infelicidade, sem terem de se sentir responsáveis por ela.
a natural constatação de que não se tem, ou não se teve, sorte na vida - nos filhos que se gerou, nos empregos que se obteve, nos casamentos que se fizeram - ainda permite a qualquer infeliz gozar a sua infelicidade sem ter de pagar, por ela, a imensa e horrível dívida da culpa.
talvez não por muito mais tempo, though. já que a figura do falhado tende a substituir a figura do infeliz. e, subjacente à figura do falhado está a ideia de que cada qual é responsável, o único responsável, pelo seu próprio sucesso na vida -  seja lá isso o que for e seja isso aferido a que nível da vida o for (a profissão, a família, a sociedade). ao domínio, impiedoso, de essa tão almejada "agência" ninguém pode escapar: um falhado, qualquer falhado, falha sempre por falha própria, não há como dar-lhe a volta. o azar, a doença, o destino, até o mero acaso, podem justificar a infelicidade do infeliz mas nenhumas dessas atenuantes pode remir, aos olhos do falhado, o seu próprio falhanço.*
assusta-me, confesso, a facilidade com que, hoje em dia, os que dantes eram tidos e se (man)tinham a si próprios como uns meros infelizes, são agora tomados, e se tomam a eles próprios, como uns verdadeiros  falhados.

* embora e talvez, paradoxalmente, a sorte, ao contrário do azar, seja mais facilmente usada para justificar o sucesso do que a felicidade.   

9.10.10

como uma criança

j'aime regarder fixement les choses até elas se tornarem vagas e indeterminadas a ponto de se confundirem umas com as outras.

5.10.10

uma vez aprisionada,


a minha grande ave
parece ter-se transformado
num pequeno réptil
com penas de madeira
colorida

2.10.10

picnic

desapareceram os caminhos, sob a erva.

30.9.10

cumprimento

... tá tão engraçado isso, as calças de ganga com o casaco de vidrilhos... ça j' adore!

29.9.10

dúvida

não tenho muitas vezes a certeza sobre a verdadeira autoria dos "meus" desejos e ambições.