23.4.10

severinas retirantes*

uma tem a forma e o comportamento de um bebé recém nascido que, quando não está a engolir a papa, está ferrado a dormir, muito sossegadinho no seu pequeno berço esverdeado.
outra, já rapariga-mulher, sempre imóvelmente alongada na cama branca, a trança preta repousante em cabelo de cinza, espera pelo beijo do príncipe desconhecido que a acordará, finalmente para não voltar nunca mais a adormecer.
a terceira é uma menina assustada, olhos de susto azul,  boca rosada sempre entreaberta, só com dois dentes, inúteis, espetados para a frente, e um velo cabelo encarapinhadamente branco - de boneca.

 * cujas vozes caladas, depois da partida culpada dos filhos, atravessam a noite do tempo entoando em silêncio solene o refrão que vos compete: morremos de morte igual, mesma morte severina

22.4.10

mistura de infantilidade pateta com patética senilidade

poderá explicar o divertimento que sinto por estar à beira de plantar aqui o meu 1500 post(o); ou o meu entusiasmo por ter hoje doze "seguidores" (esta palavra é que tende a matar o entusiasmo, tenho de arranjar outra para o proteger da morte...) em vez dos dez que tinha na semana passada.
e há mais.

21.4.10

what's in your mind (à la facebook com inspiração seusseana)

havia coisas paradas e havia coisas a mexer. coisas paradas!? se eram realmente coisas como podiam estar paradas?  as coisas estão sempre em movimento, as coisas andam naturalmente de um lado para o outro, num movimento natural que começa a leste e se dirige para o oeste (sem contudo nunca lá chegar...). pronto então não seriam coisas... mas  e o que poderiam ser aquelas coisas, em tudo iguais às outras mas que não se mexiam? poderiam ser paragens? acho que não pois, como sabes, toda a paragem, sendo paragem de (um) movimento, é ainda uma parte do movimento. parar é andar, uma paragem é um movimento parado, se quiseres um movimento sem movimento. como deves imaginar, isso é que é o auge do absurdo, o movimento ou (se) move ou não é movimento.não sei, sei que havia coisas e que, entre elas, umas era como se estivessem paradas e outras era como se estivesse em movimento. agora - que se tenham posto todas a andar ao mesmo tempo... isso não há como crer (nem querer).

20.4.10

this is the way the world ends

not with a bang but a whimper.

almoço de cogulo*

foi o verbo que marcou o almoço deste mês: as duas tigelas de bacalhau à brás vinham completamente de cogulo; os morangos, apesar da rasoira feita na cozinha, chegaram e sobraram; e dos chocolates, de todas as variedades, se encheram as tigelinhas, várias vezes, e sempre de cogulo.

* a palavra vem do latim, "cucullus", que significa «capuz; capa», daí a existência da palavra 'cogula', uma espécie de túnica larga dantes usada por religiosos no norte do país.

19.4.10

infusão (de ervas folles?)

tanto posso escrever con-fusão como sen-fusão: ambas servem a intenção  (d)escrita uma vez que qualquer um dos seus referentes resulta do e resulta no outro.

17.4.10

foi a meio da noite

que o analista entrou pelo quarto adentro, e, depois de encostar à parede o grande espelho que levava com ele, se foi sentar na borda da tua cama, pedindo para ver a casa.
o grande desarrumo e a sujidade acumulada, iluminadas por um sol primeiro e filtrado pela qualidade inefável das teias de aranha que rendilhavam a totalidade vertical e horizontal de salas e corredores, era uma imagem de tal forma esplendorosa que acabaste por não ver, no espelho, como eras vista. uma oportunidade perdida.

les herbes folles

só alguém que não viu este filme (que nunca comeu erva?) é que pode ter tido a ideia (uma verdadeira anti-ideia...) de traduzir por 'daninhas' as folias destas ervas.

até a menina que nos aparece já depois do filme ter acabado (pelo menos duas ou três vezes) mas que ainda é dele personagem (pois ele ainda há-de voltar a acabar outra vez) percebeu a qualidade, vitalmente comestível, das ervas aqui em jogo: "mãe quando eu regressar, como gato, poderei comer as ervas?"  (cito de cor e não me lembro da resposta da mãe)

16.4.10

nã me dêxes da mão!

ainda apertas a minha mão na tua mão e apertas com força. mas continuas sem me  dar o mais leve sinal de que sabes a quem pertence a mão que tens apertada na tua.
parece-me ser com o mesmo cego entusiasmo que apertas a minha mão ou a mão da enfermeira que insiste em te dar alta, ou a até a manita da nossa conterrânea (com a qual, segundo boatos maliciosos que circulavam pelos corredores de são josé, conversavas durante a noite, depois de, durante o dia, nos castigares com o mais absoluto silêncio, isto apesar de eu também te falar de lagos, tal como a luz te fala do mar e da casa, de te falar de lagos e à lagos sempre que nas histórias que te conto, ou reconto, as personagens são locais - zé neto, sr. arménio, guida t essa mesma, d. piedadezinha, zé t. esse mesmo, sr, caetano, etc.). histórias que não irão ter fim mesmo que insistas em ficar a dormir por mais mil anos, só para fazeres empalidecer de inveja a branca de neve, que só dormiu 100, tu oh minha senhora de mim, meridional e oriental, pérola escura da manchúria.
convenhamos então que qualquer mão humana te serve para apertar. mas, e a serem verdade os referidos boatos, só a escura manita de uma verdadeira filha de legues te destrava a língua que xabregas te travou.
veremos agora em são miguel.

15.4.10

facelook

tenho andado divertida no/com o  FB. depois de tanto mal ter dito dele tem-me feito confusão este volte-face da minha parte. e tenho-o atribuodo, um pouco simplisticamente decerto, ao recente encontro com os micas (por maior que seja o meu amor por eles e o prazer que tive em revê-los e re-ouvir-lhes as vozes que tão e tanto conheço).
hoje, no entanto, ao deparar no canto inferior esquerdo, com a conjunção, a todos os títulos insólita, de um querido amigo taiwanês, ao lado da minha grande amiga i.m., encimados por um ex cunhado de quem gosto muito e por uma vizinha das noites mais antigas de verão, caí desamparada no dia em que fiz 60 anos - e no centro daquela megalómana 'filosofia' que esteve subjacente à sua organização: juntar, por uma vez, na vida, todas as pessoas da minha vida (o que depressa percebi ser ou equivaler a juntar todas as minhas vidas numa pessoa.
se não me sair a sorte maior para poder voltar a comemorar, dessa forma inclusiva, outra idade redonda que ainda venha a fazer, já não tenho de esperar pelo meu próprio funeral para a repetição do milagre da unidade do eu - basta-me abrir o facebook  e olhar para o canto inferior esquerdo: está lá a minha vida toda* que não é outra coisa senão as caras das pessoas com cujas vidas ela ela se foi fazendo.

*obsessiva como sou, temo que a partir de agora, os "meus amigos" no fb aumentem para números inverosímeis.