2 months ago
5.4.10
um dia, duas questões
a ipseidade, isto é, a qualidade de me representar a mim própria como permanecendo a mesma apesar das mudanças que me afectam o corpo (e a alma, o efeito "psi" do corpo?) e a necessidade de me constituir a mim própria, isto é, o desejo de me inventar sem modelo nem destinatário.
4.4.10
o sr. barão
um rio de água muito escura e brilhante na qual muitas e desvairadas pessoas se banhavam deliciadas. talvez mais uma estrada larga de mar nocturno, via líquida mas a descer como só um rio pode descer.
entre os banhistas, que discutiam com intermitente vagar o que poderia vir a ser uma poética da relação, ninguém parecia notar a presença de um barco imenso, atracado ao cais da universidade, cujo dono, um pequeno português sem pátria, casado com uma inglesa, estava ausente em parte incerta.
3.4.10
língua, não morta, transformada em pedra:
(...)
Natus sum quo nefastum est,
Concubui cui nefastum est,
Kekidi quem nefastum est.
Lux facta est.
(...)
2.4.10
sontag:
31.3.10
fotografia futura
fotografo, fotografo e fotografo: quase sempre as mesmas coisas e nos mesmos espaços; mas tanto fotografo o presente como no passado - e, em dias de mais sorte consigo fotografar-me em futuro.
28.3.10
lividez
o doente, muito magro e de pele bastate escura, vinha deitado no banco de trás do táxi que eu tinha mandado parar julgando-o vazio. ah peço imensa desculpa, não percebi que vinha com gente, disse eu mal abri a porta de trás.
o passageiro soergueu-se um pouco, a custo evidente, ao mesmo mesmo tempo que tentava encolher as pernas como que a fazer lugar para mim no banco onde viajava enrolado num leve cobertor: é difícil sabe porque sofro de incontinência urinária e sou lívido.
tinha uma voz doce e tranquila, talvez do cansaço do corpo engelhado, e os olhos enormes brilhavam-lhe como se ardesse em febre. imaginei-o a caminho do hospital enquanto voltava a pedir desculpa: o senhor por amor de deus não se incomode, eu fico à espera que passe outro táxi.
o passageiro soergueu-se um pouco, a custo evidente, ao mesmo mesmo tempo que tentava encolher as pernas como que a fazer lugar para mim no banco onde viajava enrolado num leve cobertor: é difícil sabe porque sofro de incontinência urinária e sou lívido.
tinha uma voz doce e tranquila, talvez do cansaço do corpo engelhado, e os olhos enormes brilhavam-lhe como se ardesse em febre. imaginei-o a caminho do hospital enquanto voltava a pedir desculpa: o senhor por amor de deus não se incomode, eu fico à espera que passe outro táxi.
27.3.10
25.3.10
o doente disse, sem pausa ou entoação,
que o verde do sofá onde estava sentado, na sala-consultório, lhe lembrava as grandes pradarias para cuja planura lhe apetecia fugir embora também sonhasse com a verticalidade azul das montanhas brumosas; que do mar, o que desejava era a imobilidade, e das árvores, o marulhar ao vento; que queria pôr a nu o seu corpo velho e cansado para primeiro o deixar derreter ao sol e depois devolver-lhe a forma nas águas geladas do rio; que a humana razão era o seu único vício e o pecado original a perda da virtude das plantas e dos animais; que se sabia encarcerado numa prisão sem guardas, nem muros, nem grades, cujo portão permanecia sempre escancarado diante de si.
Subscribe to:
Posts (Atom)
