9.2.10

uma cõ tradição viva

apesar de - e certamente devido ao meu horror por todas as formas de omnipotência - desgostar que os vivos se arroguem o direito de determinar o que “deve” acontecer, depois e em consequência da sua morte (da distribuição dos bens e dos males, * passando pelo tratamento e posterior descartamento dos restos mortais,** até ao planeamento e gestão da cerimónia fúnebre***) acontece-me sonhar com a maravilha que seria a minha despedida do mundo – oh diabo, isto é perspectiva de vivo, nesse momento será só o “mundo” a despedir-se de “mim” - se ela fosse celebrada ao som leve, fresco e borbulhante, absolutamente cristalino, das gargalhadas da minha neta mimi.

* no entanto agrada-me a ideia de deixar previamente pago o funeral.
** mas prefiro o processo lento da decomposição ao momento fulgurante da incineração. 
*** ainda que preferisse ser eu a única decoradora da minha última sala de visitas. 

7.2.10

reposição da ordem

a esplanada do jardim da estrela reabriu: lá fora são apenas as clássicas mesas e cadeiras de metal, verde-escuras e soltas umas das outras; dentro, é a madeira, de cores e formas diferentes, num estilo sem estilo, que mistura country, alternativo, vintage, veggie e, creio, é o responsável pelo ligeiro ar de desmazelo do novo espaço, apanágio de qualquer sala realmente confortável; há revistas num carrinho, sopa e pratos relativamente baratos e muito possíveis. mas o teste final só acontecerá com o pequeno almoço, no próximo domingo.

o fazer do fazer

eu faço como a minha mãe fazia e a mãe dela recomendava às filhas, e às filhas das filhas, que fizessem no que fizessem. como é de fazer entre nós, pequenas mulheres de grandes sabedorias.

5.2.10

as efabulações do coelho


são para continuar em qualquer outro lugar...
até porque acabada esta história é ainda o coelho paulo que nos fica na memória.

não é nada

foi então que a senhora de la palisse, reafirmando o seu pensamento, disse (a fazer-se retórica): "porque será que não há nada que remeta para nada?" apenas porque o nada não existe minha senhora. além disso, se existisse, não seria nada.

3.2.10

o coelho e a ciência

o coelho paulo não é desses que nos saltam à frente dos passos no quintal das traseiras; também não é dos que nos aparecem diante dos olhos debaixo de uma cartola vazia. não é de artes foleiras nem criatura de magia: o coelho paulo é cavalheiro de sabença, um príncipe da renascença.

partidas e chegadas: (ou o último exame de uma licenciatura)

- como é que era zé? senhora, partem tão tristes meus olhos...?
- ...por vós, meu bem.
- sim... e o resto?
  que nunca tão tristes vistes
  outros nenhuns por ninguém...
  tão tristes, tão saudosos,
  tão doentes da partida,
  tão cansados, tão chorosos,
  da morte mais desejosos
  cem mil vezes que da vida.
  partem tão tristes, os tristes,
  tão fora de esperar bem
  que nunca tão tristes vistes
  outros nenhuns por ninguém.
é isso. tão bonito. e tão triste.

2.2.10

ontem,

sem que nada o fizesse prever, de repente, caí em mim. mas olha que ainda foi sorte não te teres aleijado. 

a menina e o coelho

o coelho paulo não é um coelho qualquer. além de ser um doutor também faz de caçador. e em dia de caça fina, veste casaca e batina. ó coelho, tem cuidado com a menina!
(a continuar)

desilusão, ressentimento e perplexidade

porque de início julguei que o "problema" tinha mesmo sido resolvido lá onde ele de facto me incomoda. e até muitas vezes embaraça - pela dose diária  de cabotinismo, convencimento e provincianismo. e porra, afinal tinha sido no JN. que eu não tenho o hábito de ler.

porque também eu me tenho farto de dizer, igualmente em público e em voz alta, que o crespo me parece estar a ficar desembestado. leia-se, num crescendo de loucura. e nunca ninguém lhe foi dizer nada. ou então foi ele que não ligou nenhuma. deve ser isso: o tipo, além de baboso é um vaidoso do caraças, para ele só de ministro para cima é que conta. 

porque não consigo perceber o que é que ele quer dizer quando diz, e desta vez, sem ser no seu estilo pompó-rococó televisivo : "fui descrito como “um profissional impreparado”. que injustiça. eu, que dei aulas na independente. a defunta alma mater de tanto saber em portugal".