2 months ago
15.1.10
one part wisdom...
gosto de ser parte integrante da paisagem, de me integrar no todo, de me indistinguir no cenário. não gosto de ser e quando sou gosto de ser como se não fosse.
14.1.10
corporologia
A palavra corpo tem essa força de evocação junto dos sonhadores impenitentes que se impõe ao nosso imaginário, como lisura, pontuada de pregas, rugas, linhas e pilosidades, interrompida por bocas, ângulos e curvas, de uma paisagem matinal e exterior; mas, ao mesmo tempo, sugere, um secreto labirinto de canais, poços, bolsas, camadas fibrosas, membranas diáfanas, líquidos espessos e infinitas circunvoluções, que compõem uma paisagem crepuscular e interior. O corpo é o nosso interior e o nosso exterior. Portáteis. Nele se escrevem marcas das dores e dos prazeres, dos ímpetos e dos recalcamentos, mal conhecidos dos detentores da ciência, mas matéria de erro e errância dos amantes.
A superabundância de apelos, mais ou menos publicitários – nunca inofensivos – à conservação patrimonial do corpo em estado de perpétua juventude – sob o signo da máxima, vagamente tingida de eugenismo, mente sã em corpo são – camufla um paradoxo que as paisagens terrestres nos ajudam a desvendar, por vezes quase a decifrar. É que, em boa verdade, quanto mais velho, desgastado, trabalhado pela erosão um corpo parece, mais nele comparece a corporalidade, interna ou externa. Em poucas palavras, quanto mais antigo é um corpo, mais corpo é.
tirado daqui por sugestão de pessoa amiga a quem devo, e muito agradeço, a informação.
13.1.10
passamento
do autor do blog buba que, só por modéstia, se assinava "ultra-passado". ça peine para usar uma expressão sua, num post publicado em agosto passado: E sobre a vida e a morte o que eu gostaria e não sou capaz, era de pensar que a vida não tem nunca finais felizes e que à chaque jour ça peine. Quero eu dizer: Quando chega a hora de ficar sozinho e fico só comigo mesmo, há uma área em que ninguém me pode ajudar e eu penso como gostaria de pensar – e não consigo – à chaque jour ça peine. Ça suffit. E não consigo… Ninguém me pode ajudar. Sinto-me perdido.
11.1.10
embaciada
no aeroporto da terceira, gate 1 à espera do embarque para lisboa.
dois "velhotes", sentados frente a frente, conversam espaçada e pausadamente:
...
- então e vai por muito tempo?
- não. só uma semana. vou por causa da minha placa. esta é provisória, vou agora tratar da definitiva. isto não há dinheiro que pague o prazer da gente mastigar o nosso bifinho, o nosso bacalhauzinho...
dois "velhotes", sentados frente a frente, conversam espaçada e pausadamente:
...
- então e vai por muito tempo?
- não. só uma semana. vou por causa da minha placa. esta é provisória, vou agora tratar da definitiva. isto não há dinheiro que pague o prazer da gente mastigar o nosso bifinho, o nosso bacalhauzinho...
balançada
uma tristeza finita,
uma solidão relativa,
um abandono tolerável,
uma proximidade distante,
uma dor suportável,
um passar-se ao lado de frente,
oh diabo, esta pretensiosa enunciação confessional, assente na monótona repetição de substantivo + adjectivo, parece-me tão pedro abrunhosa que até ouço, na mudez das minhas palavras escritas, a voz, do porto e de engate, do homem. ESTE POSTE NÃO VALE.
uma solidão relativa,
um abandono tolerável,
uma proximidade distante,
uma dor suportável,
um passar-se ao lado de frente,
oh diabo, esta pretensiosa enunciação confessional, assente na monótona repetição de substantivo + adjectivo, parece-me tão pedro abrunhosa que até ouço, na mudez das minhas palavras escritas, a voz, do porto e de engate, do homem. ESTE POSTE NÃO VALE.
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